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Trogir: Uma pequena jóia.

Trogir: Uma pequena jóia.

Trogir apareceu como uma miragem. Em dado momento, a estrada principal que vem do norte, manda o motorista sair à direita e, de lá, seguir numa via de mão dupla na direção de um vale. A estradinha então vai se desenrolando sem maiores atrativos visuais quando, de repente, se avista com grande impacto, ainda do alto, todo o azul turquesa do Adriático, desenhando cuidadosamente os limites geográficos da orla, de varias pequenas vilas, das ilhas e de algumas montanhas. Um visual de cinema. E, no meio dessa paisagem, quase escondida, a minúscula ilha de Trogir, encravada entre o continente e a enorme ilha contígua de Čiovo, ficando separada destes por dois pequenos canais. Na foto abaixo, da vista que dispúnhamos, escrevi a palavra trogir na localização exata da mini cidade.

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Paramos para tirar uma foto da cena e então nos demos conta que a Karine tinha esquecido a bolsa com documentos e demais pertences na pousada em Skradin. Imaginem o transtorno que seria uma perda de passaportes, dinheiro e outros documentos? A viagem praticamente se encerraria ali. Mas tudo não passou, por sorte, de um breve contratempo que nos obrigou a voltar e felizmente recuperar o objeto. Uma hora e meia a mais até chegarmos finalmente em Trogir, de onde estávamos a apenas 10 minutos. Acontece!

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Trogir está situada na Dalmácia Central, ao longo da exuberante costa do Adriático. Trata-se de um maravilhoso museu a céu aberto. Pela sua posição geográfica peculiar, é um porto naturalmente protegido e se tornou muito popular entre visitantes de todos os tipos e procedências, inclusive donos de barcos e iates, que se servem de sua pequena marina para lá ancorar e visitar o local, que é patrimônio da humanidade Unesco desde 1997.

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Fundada pelos gregos no século III antes de Cristo, quando ainda era uma pequena colônia, recebeu o nome de tragurion e sempre foi alvo de disputas ao longo de sua história, tendo sido dominada sucessivamente por romanos, bizantinos, húngaros bárbaros, venezianos e franceses. As influências de todos esses povos ficaram bem registradas na cidade, que preserva um inestimável legado de edifícios e monumentos influenciados pelos respectivos ocupantes do passado.

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É considerada a cidade de construções romanas mais bem preservada de toda a Europa, com uma orla deslumbrante, ruas em forma de labirintos, monumentos, casas com paredes de pedra e palácios com as respectivas fachadas muito bem mantidas desde sua concepção original, ainda na idade média. Trogir foi uma grata surpresa! Todos seus caminhos levam a uma charmosa praça central, ou a sua orla pitoresca. Uma autêntica jóia, digna de contemplação. Ficamos uma noite em Trogir, no hotel bellevue, distante apenas 50 metros de uma das três pontes que ligam o continente à ilha.

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Assim pudemos aproveitá-la com calma, passear pela sua orla/promenade, sentar em cafés e restaurantes, observando o vai e vem de turistas e locais, e ainda caminhar pelos seus labirintos e ruas de pedra, imaginando a história e cultura milenar desse vilarejo. Ainda que o visitante não disponha de todo esse tempo, é possível uma rápida visita no decorrer de uma tarde. Fica a 20 minutos de Split (do aeroporto menos ainda) e, se esta estiver no roteiro, não haverá como escapar de Trogir. Ônibus ou passeios guiados são boas alternativas. Vale muito conferir.

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Chegamos na cidade por volta do horário do almoço e após deixar a bagagem no hotel, fomos dar o giro de reconhecimento e, por indicação (excelente) da recepcionista, almoçamos na Konoba TRS.  A outra indicação tinha sido a konoba Alka, que estava fechada em obras de reforma. Aliás, esse termo a gente vê em todo local na Croácia. Konoba significa um restaurante não tão formal, tipo uma taberna ou cantina. Pois bem, essa Konoba fica em uma ruína romana dentro da cidade e, com o dia de sol que fazia, apresentava uma iluminação muito agradável, decorrente de feixes direitos de luz solar entrecortados por sombras de árvores.

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O mais importante é que a refeição estava deliciosa. Tomamos vinho branco croata da cepa autóctone pošip e comemos pratos típicos da cozinha dálmata. Recomendo a pašticada, um prato de carne típico muito saboroso. Imperdivel vir a este restaurante se estiver de passagem por Trogir. Recomendo muito mesmo uma refeição nesse local. Não deixe de pedir a sobremesa indicada pelo garçon, típica da iugoslavia, de pronúncia difícil e sabor delicioso. Paradižot s kozijim mlijekom i piškotima. Traduzindo, algo semelhante à um pavê, recheado com creme de baunilha e um biscoito muito bom que eles chamam de dedo de moça. Em cima, raspas de chocolate meio amargo sobre uma fina espuma de claras em neve.

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O atendente nos contou uma história dando conta que essa sobremesa teve um papel importante na 2a guerra mundial, pois durante um certo periodo, foi a única ração servida aos cidadãos, mantendo-os vivos, devido à escassez no abastecimento das cidades do país. Uma pena não ter tirado uma foto da iguaria. Mas lembro do sabor até hoje. Trogir é considerada um pólo referência de gastronomia na região, com influências evidentes ao longo de sua rica historia, da cozinha mediterrânea, onde prevalecem os pratos de peixes, frutos do mar, azeite de oliva, queijos, presunto e várias especialidades de carnes como porcos selvagens e outras caças. Foto abaixo do interior da konoba TRS:

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Após o almoço, nos perdemos pelos vários labirintos e ruelas estreitas de Trogir e, entrando e saindo de algumas poucas lojinhas, acabamos na renomada praça central, com nome de Papa e santo, aonde fica o mais importante monumento da cidade, a catedral de Saint Lawrence, expoente máximo da arquitetura medieval na Croácia. A praça João Paulo II –trg ivana pavla II– é muito bonita mas a catedral impressiona. Trata-se de uma imponente basílica romana, com um conjunto composto por 3 naves e a torre do edifício principal, além de uma capela e do batistério que, juntos, consumiram quase 400 anos para ficarem completos. Foto da praça e do edifício da catedral, Lógia.

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Como pontos fundamentais, a grande porta de entrada principal, com esculturas de Adão e Eva, e de outras cenas de referências bíblicas misturadas com situações cotidianas, criadas por Master Radovan, um famoso escultor croata que viveu na idade média e que trabalhou tambem nos detalhes da fachada da basílica de Šibenik. Além desse portal, vale subir a torre dos sinos, de onde se avista o famoso relógio e a cidade do alto.

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Esse edifício Lógia, conta com uma espécie de pátio coberto, à direita e embaixo, bem defronte ao centro da praça, e de visitação aberta, onde se apresentam informalmente, sobre um pequeno púlpito, a cada 25/30 minutos, os grupos de cantores de coro de vozes dálmatas, tipicamente trajados, executando números e tentando vender seus CDs e descolar uns trocados dos turistas incautos. Nesse espaço, há uma bela escultura em relevo, representando a Justiça, feita também por Radovan. Optei por mostrar uma foto (abaixo) sem a presença do grupo vocal.

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Cumprida a visita à Catedral, seguimos caminhando sem rumo certo pelo vilarejo, entrando e saindo de lojas, tomando sorvete, café expresso, água mineral e desfrutando um inesquecível pôr-do-sol ao longo da linda orla de Trogir, com suas múltiplas palmeiras e barcos ancorados, separada por um canal da grande ilha de Čiovo. O outro canal, menor e menos glamouroso, separa o outro lado da ilha ao continente balcânico. Abaixo, fotos do canal menor, que separa a ilha ao continente. O canal maior pode ser visto em todas as fotos onde aparece a riva, a orla.

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Uma das coisas que mais gosto de fazer nessas horas é sentar para um café expresso e ficar observando o vai e vem das pessoas.  Essas cidades mais turísticas, como Trogir e tantas outras na Croácia e Europa como um todo, geralmente se livram das grandes manadas de visitantes de meio expediente ao final da tarde e, só então, acabam mostrando aos insistentes, a sua verdadeira fisionomia e personalidade. Por sorte e insistência, pernoitamos aqui e usufruímos a cidade um pouco como os locais.

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Após o desbravamento de novos becos e esquinas, comprei de presente para a esposa um colar de coral natural vermelho muito comum aqui na Dalmácia. Vendem em todas as cidades do litoral, mas principalmente aqui e em Dubrovnik. Fica a dica de um bonito presente para a esposa, namorada, mãe, avó, irmã, filha ou melhor amiga. Já concluíndo a noite, jantamos em um restaurante horrível, pega turistas total, uma comida péssima, com um serviço lento e sofrível. O nome do restaurante é Don Dino. Roubada! Se você estiver em Trogir, fuja dessa espelunca. Muito fraco! Antes tivéssemos tido a sabedoria de repetir a Konoba TRS. Após o jantar, mais um passeio pela orla, já quase deserta.

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No dia seguinte, acordamos bem cedo e, após o delicioso desjejum servido no hotel em que nos hospedamos, fomos explorar mais um novo dia de sol e experimentamos a cidade-museu com a luminosidade da manhã, ainda sem as centenas de turistas e observando o despertar das pessoas rumo a seus afazeres cotidianos. Repetimos a dose e os trajetos do dia anterior e visitamos outro monumento imperdível, a fortaleza kamerlengo – kaštel kamerlengo-, de onde se obtém um visual estonteante da orla, das palmeiras em fila e do canal com os barcos.

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Trata-se de uma impressionante fortaleza construída pelos venezianos (no período em que controlaram a cidade) em 1430, como parte do sistema de proteção e defesa criado na época, em decorrência das sucessivas invasões sofridas. Vale a visita aqui. Porém, nada de interessante no interior. Apenas subir, contemplar o visual, tirar umas fotos e descer. Foi o que fizemos. E valeu demais!

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Antes de ir embora, cruzamos a ponte e fomos até à orla de Čiovo, buscando outros ângulos e perspectivas para novas fotos da linda riva de Trogir.

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Após, retornamos ao hotel e partimos. Cumprida mais uma etapa da viagem, rumamos para Split a segunda maior cidade da Croácia, com sua incrível orla, de onde partem barcos e catamarãs para quase todas as ilhas do Adriático e seu centro antigo mágico, onde tudo gira ao redor e em função do palácio diocleciano. Temas do próximo post…

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