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Toscana. Parte final – Montalcino, Pienza, Montepulciano e São Francisco de Assis.

Toscana. Parte final – Montalcino, Pienza, Montepulciano e São Francisco de Assis.

O último post sobre a viagem da Toscana, com um ano de atraso por razões que nem eu mesmo sei bem explicar, rende homenagens eternas e indeléveis a essa região deliciosa da Itália. Nos dois últimos dias, visitamos em um deles as cidades de Montalcino, Pienza e Montepulciano. E, no último, finalizando nosso giro, ainda fomos até a Úmbria, conhecer o maravilhoso santuário de Assis e sua fantástica basílica. Para quem curte vinho e gastronomia, então, estamos falando de um dos paraísos na terra, sem qualquer exagero. Abaixo, foto da visão que se tem de Montalcino, antes do início da subida da estradinha que leva até ela:

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A primeira parada do dia foi mesmo a linda Montalcino, uma ensolarada aldeia medieval situada no topo de uma colina, onde chegamos por volta das 10 horas da manhã. Há estacionamentos ao redor de toda a vila com parquímetros e o acesso ao centro, à pé, é bem fácil. Fazia um dia deslumbrante de sol, sem estar muito quente, o que tornou o passeio ainda mais agradável. Iniciamos com uma caminhada geral pela cidade. fomos direto ao monumento mais famoso, a Fortezza di Montalcino. com entrada paga.

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No interior da fortezza, além da possibilidade de contemplar os visuais dos arredores, funciona uma enoteca que vende todo e qualquer tipo de vinho italiano (a maioria deles os vinhos da casa, os brunellos). Além disso, eles fazem também algumas degustações pagas e com preços variados, dependendo da disposição do visitante. Não é o melhor lugar para comprar os vinhos brunello, pois por ser um lugar muito turístico, eles acabam cobrando mais caro que a maioria das demais enotecas. Contudo, vale pelas degustações e pelos visuais. Obrigatória a visita aqui.

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Vir a Montalcino e não beber e falar de vinho é como ir à Roma e não visitar o Papa. O Brunello di Montalcino, renomado vinho toscano, altamente reconhecido e apreciado nos 4 cantos do mundo, se tornou juntamente com o Chianti, uma das maiores e mais interessantes expressões da casta de destaque na Toscana, a Sangiovesi, que aqui é representada por um de seus muitos clones, a Brunello. De cor escura, aromas intensos, sabor agradável e complexo, harmoniza perfeitamente com pratos à base de molho de tomate, em virtude de sua discreta acidez, assim como queijos de casca dura, massas e carnes. Uma maravilha. Pode funcionar também como um vinho de meditação, e ser bebido sem a necessidade de se fazer acompanhar por uma refeição completa. Tem uma DOCg somente para si. Para quem se interessar em comprar alguns exemplares, indico os produtores Casanova di Neri, Castello Banfi, Valdicava, Il Poggione, Fuligni e Biondi Santi. Em geral, é um vinho de preço alto e bastante procurado. Isso se dá também porque necessita de envelhecer ao menos 4 anos para chegar ao mercado, passando 2 anos em barricas de carvalho e mais 2 descansando nas garrafas. Se for o Brunello Reserva, será ainda mais caro, precisando de ao menos 5 anos antes de ser posto à venda. (fotos de garrafas antigas expostas na enoteca da fortezza):

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Além da Fortezza, caminhamos por cerca de uma hora adicional pelos becos e ruas estreitas da cidade. A cidade é bonitinha, calma e agradável, mas, além da fortezza e do seu vinho maravilhoso, não possui assim tantos outros lugares para visitação. Na idade média, Montalcino era a maior aliada de Siena, contudo, antes desse período, a cidade chegou a ser também dominada por Florença. Quando a família Médici se apoderou da Toscana, a cidade entrou em declínio e passou um período como uma vila humilde. No final do século XIX, a família Biondi Santi comprou terras e antigos vinhedos na região, passando a produzir uma espécie de vinho, que veio a ser a origem do que se tornaria o famoso exemplar local cerca de um século depois. Hoje, a cidade prosperou em função de seu maravilhoso produto decorrente da fermentação das uvas sangiovesi, vivendo e respirando essa atmosfera inebriante. Como destaque do giro, vale uma passadinha rápida e um café espresso pela piazza del poppolo. Fotos abaixo:

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Finalizada a visita, mas ainda em Montalcino, cerca de 800 metros a partir da saída da cidade, descendo pela estrada, paramos para um almoço no restaurante Bocon divino, o qual tínhamos uma ótima indicaçãocom deliciosa comida e vistas deslumbrantes do vale. Recomendadíssimo! Vale um parentese aqui, pois esse estabelecimento conjuga a oferta de uma requintada comida italiana, de várias opções de saborosos brunellos di montalcino para harmonização com todo e qualquer prato e de visuais estonteantes dos arredores. O local tem um estacionamento bastante conveniente para quem está de carro e lá também funciona uma hospedaria anexa, independente do restaurante, que pode ser visitado mesmo por quem não esteja lá hospedado. Tente conseguir uma mesa do lado de fora para poder se deliciar com o visual do vale d´orcia e de seus muitos vinhedos a perder de vista.  O único ponto negativo é o serviço, bem lento, mas nada que atrapalha essa experiência multi-sensorial completa.

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Após o almoço, descemos a colina de Montalcino e, novamente pelos belos caminhos do Val d’orcia, fomos conhecer Pienza, a estupenda cidade localizada bem no coração do citado vale toscano e conhecida por fabricar um dos queijos mais famosos e saborosos da bota, o queijo pecorino, com vários tipos e sub-tipos, todos de sabor e textura agradabilíssimos. Pienza é um pouco menor que Montalcino e tem praticamente uma única rua principal, cujo destaque absoluto, é a praça Pio II, patrimônio da humanidade pela Unesco. Além da praça, a cidade oferece ruas de pedra, becos, esquinas e vistas fantásticas dos arredores, tendo a vantagem de ser bem plana, ao contrário de Montalcino e de Montepulciano (comumente visitadas em conjunto). Facílima de percorrer e visitar em um par de horas no máximo. Abaixo, fotos de Pienza:

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A praça Pio II, sem dúvida, além das lojas de queijo, é a sua principal atracão. Tem o nome do filho mais ilustre dessa terra, que após se empenhar na reforma da cidade e do espaço da própria praça, se tornou o Papa Pio II. Seu objetivo maior foi promover uma grande transformação em sua cidade natal, que originalmente se chamava Corsignano, executando um plano de embelezamento fantástico, com o objetivo de que as formas e construções retratassem o estilo da arquitetura renascentista, em voga na época. Estamos falando de algo próximo ao ano de 1464 e o exitoso trabalho que transformou essa pacata vila em uma joia renascentista contou com a liderança e supervisão do arquiteto Bernardo Rosselino.

Pienza centro

 

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O espaço aberto e quase quadrangular da praça se apresenta tal qual uma sala de estar ao ar livre, muito elegante e artístico, tendo sido magnífica e harmonicamente aproveitado, contendo os edifícios contíguos (no sentido do relógio) da prefeitura, um museu, uma fonte, um pequeno palácio pertencente à família Piccolomini e o Duomo, Parece que o tempo e o relógio pararam aqui. Um sutil recuo de espaço entre colunas dão ao ambiente toques reiterados de simetria e perspectiva ideal. Dizem que na alta temporada, em meados de julho e agosto, a praça fica tão cheia que perde uma grande parte de seu encanto. Tenha então em mente que é absolutamente obrigatória a visita à Pienza, degustando generosas fatias de queijo pecorino com presunto ou salame.

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Após a saída de Pienza, seguimos na estradinha  pelo Val d’Orcia e nos dedicamos a subir para a última parada do dia, a também fantástica Montepulciano, a terceira joia da coroa nesta jornada tão especial. A visita a este pequeno e também deslumbrante vilarejo medieval, cujo centro e ruas é todo fechado ao tráfego, exige a parada do carro em um dos estacionamento colados aos portões de entrada, na base da cidade. Montepulciano, ao longo de sua história, sempre se alternou entre o domínio de Siena ou de Florença. Assim como Siena, embora com menos fama, também mantém seus mini-distritos (contrades) cada um com sua respectiva bandeira e no final do mês de agosto, há uma competição curiosa entre os representantes de cada distrito, que carregam grandes barricas de vinho até o alto da colina, em busca do grande prêmio. Foto abaixo da Porta al Prato, início de uma subida muito íngreme até o topo da vila:

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Parqueamos no estacionamento principal, junto ao denominado Porta al Prato, portão de acesso à parte medieval. Feito isso, considerando que o objetivo final é chegar até a piazza grande, que fica no topo da colina, surgem duas alternativas. Ou o visitante se serve do tíquete combo com um ônibus que sobe e desce com as pessoas até em cima, ou então opta por fazer o trajeto à pé, percorrendo as íngremes ladeiras desta charmosa vila em um trajeto de 25 minutos. A vantagem desta opção é passar com calma pelo comércio, visitando as muitas lojinhas, livrarias e enotecas que se oferecem no caminho. Fotos da piazza grande lá em cima:

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Embora já bem fatigados, optamos por subir a pé, bisbilhotando as múltiplas vitrines que surgiam a cada momento. Após uns 30 minutos, chegamos na piazza grande onde um trio tocava música de câmara em uma igreja, executando temas de Bach e Schubert. Valeu a recompensa. Ficamos um tempo admirando a harmonia das construções na praça e também os mirantes que possibilitam velas vistas dos vinhedos e dos vales abaixo (foto com vista do alto de Montepulciano):

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Em seguida, após tirarmos algumas fotos como a que está colocada bem acima,  descemos e paramos para comprar alguns vinos nobiles de montepulciano. Aqui, indico a excelente Enoteca La Dolce Vita, com um ambiente muito agradável, serviço personalizado de atendimento e todas as opções dos melhores vinhos toscanos, com destaque para o vinho local. Se você pretende comprar alguns rótulos, sugiro apenas um, do produtor Poliziano. Peça quantas garrafas puder ou quiser deste vinho e também do Poliziano reserva, que se chama Asinone. Você estará levando o que há de melhor. Após irmos embora, retornamos à Cortona pela strada del vino passando por várias propriedades vinícolas e destacados visuais de vinhedos escarpados  nas encostas, e incrementados pela luz do por do sol. Fotos abaixo de Montepulciano, antes de subir a pequena serra até sua entrada e de alguns rótulos de seus maravilhosos vinos nobiles. Foto abaixo no interior da Enoteca:

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Esse dia foi um dos ápices de nosso roteiro. Para mim, um apaixonado por vinho, visitar duas cidades com vinhos toscanos altamente reconhecidos mundo afora e que são representados por 2 das mais importantes DOCGs (Denominação de Origem Controlada e Garantida) da Toscana e da própria Itália foi algo que não teve paralelo. Nota e dica importante: É possível visitar as três cidades em um único dia? Sim, foi o que fizemos. Mas acredito não ser esta a decisão ideal. Montalcino e Pienza podem até ser conjugadas em um dia, mesmo porque são muito próximas entre si e, ambas, isoladamente, não chegam a tomar muito tempo. Contudo, se a pessoa for muito aficcionada por vinho, deve considerar seriamente dedicar um dia inteiro para a exploração da terra do Brunello. Nesse caso, inclua no roteiro, visita e degustação guiada em uma vinícola. Montepulciano, por sua vez, vale uma percorrida com mais calma, pois tem um comércio muito interessante ao longo do percurso de subida até a piazza grande. Como chegamos lá no final da tarde, tivemos que fazer tudo meio corrido, pois estivemos na cidade por um par de horas. Julguei insuficiente, apesar de ter conseguido um panorama geral. Assim, tente reservar ao menos uma tarde inteira para ela. Fotos abaixo de alguns rótulos de vino nobile:

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No dia seguinte, fomos nos aventurar por um pedacinho da Úmbria. Saímos cedo do hotel em Cortona e pegamos a estrada para o Leste. Passamos pela entrada de Perugia, famosa por seus chocolates Perugina. Mas, nosso objetivo era outro e precisávamos chegar ao destino, Assis! Curiosamente, apesar de nosso giro ter acontecido quase o tempo todo pela Toscana, a mais emocionante cidade visitada localiza-se na região ao lado. Assis, maravilha de lugar, terra de nascimento de São Francisco, registrado apenas como Francesco Bernardone, um homem simples, que passou a vida todo pregando a humildade, respeito ao meio-ambiente, o desapego às coisas materiais, a valorização da espiritualidade e da prática do amor ao próximo. Uma cidadezinha com ruas estreitas e charmosas, localizada no alto de uma colina e que vive em função de seu mais magnífico e grandioso monumento, a maravilhosa basílica de São Francisco de Assis!

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Sou católico não praticante e gosto de visitar algumas igrejas quando viajo, as vezes até mais pela arquitetura e pelas obras de arte interiores, do que pela própria religiosidade da experiência em si. Mas, em Assis, a situação é diferente. Foi muito emocionante visitar a basílica. Um lugar belíssimo, um ambiente de muita paz e harmonia, onde você observa a manifestação de fé e gratidão de tantas pessoas, devotas, peregrinas, fiéis que realizam o sonho de suas vidas lá estando, para pagar uma promessa, demonstrar sua gratidão ou apenas reverenciar o santo. As pessoas choram, se ajoelham, rezam, pedem efusivamente e agradecem. Impressionante. Fotos abaixo da Basílica vista de baixo da cidade e a outra dos vales e planícies da úmbria, vistos desde a lateral da Basílica:

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A igreja tem três níveis em seu interior. O primeiro, o superior, da entrada, que conta com os famosos afrescos de Giotto, o segundo, inferior, com um altar que representa a penitência. Por fim, o andar mais abaixo, onde se localiza a cripta e uma pequena capela, descoberta apenas em 1818, que guarda o tumulo de São Francisco. Imperdível visitar Assis e sua basílica maravilhosa. Mesmo planejando uma viagem somente pela toscana, dê uma esticadinha até esta magnifica cidade da Úmbria e se regale com tanta beleza, história e simbolismo de fé. Foto da basílica e de seu interior (apenas o primeiro andar)

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Se algum dia voltar a Assis, pernoitarei na cidade. Tenho convicção plena que as massas de visitantes, romeiros, peregrinos, pagadores de promessa e devotos que inundam a cidade ao longo do dia, impedem um pouco a percepção do local, tal qual São Francisco dispunha. A noite a maioria se vai e então a cidade se apresenta de verdade.  Assim, fica a dica para quem ainda for se aventurar por lá.

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Chegamos de volta ao hotel quase no final da tarde, com renovadas lições de fé e humildade. Após um breve descanso, ainda encontramos tempo e fôlego para um giro noturno em Cortona, com direito a jantar de despedida e passada por uma gelateria após onde degustamos um stracciatella (flocos). No dia seguinte da visita à Assis, bem cansados, acordamos sem hora no delicioso hotel villa di piazzano nas cercanias de Cortona e, após um lento café da manhã, curtimos uma manhã preguiçosa de sol e piscina, para então finalmente deixar em definitivo nosso pouso, partindo pela A1 com destino a Roma, tema de outro post. Na estrada, passamos ao lado da bela cidade de Orvietto, cuja visita também estava em nossos planos, mas que devido ao cansaço e à vontade de chegar logo em Roma, ficou adiada para uma ocasião futura. Foto da janela do quarto do Hotel.

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Com isso, encerro a série de relatos sobre a maravilhosa e saborosa Toscana (acrescida de toques pontuais de Úmbria e Emilia-Romagna). Espero ter conseguido traduzir de modo o mais fidedigno e real possível, por minhas limitadas palavras, toda a alegria e o entusiasmo contagiante que sentimos ao passar por tantos lugares, vilas e vilarejos inesquecíveis, gravados ad eternum na nossa memória. Uma região iluminada (nos dois sentidos, real e figurado) e que superou com folga todas as nossas expectativas, que já eram muito altas! Sem dúvida uma das 10 viagens obrigatórias que uma pessoa precisa fazer na vida por todo o conjunto da obra. A comida, os vinhos, as paisagens, as cidades, os museus, a arte e tantas outras coisas deixaram marcas definitivas em nossos corações, muita saudade e um gostinho de quero mais, aliás, muito mais! Obrigado Toscana por tanta coisa boa! Ate a próxima, que espero seja em breve!

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Do Rio pro Mundo

5 pensamentos sobre “Toscana. Parte final – Montalcino, Pienza, Montepulciano e São Francisco de Assis.

GustavoPublicado em  2:41 pm - ago 24, 2014

Felipe, fenomenal esse último post sobre a Toscana. Também sou um apaixonado pelos vinhos e a boa mesa; a foto do Brunello com a paisagem ao fundo é simplesmente espetacular! Assim, seguirei sua dica e dedicarei 2 dias para essa região quando for em maio próximo!!

    Do Rio pro MundoPublicado em  6:45 pm - ago 24, 2014

    Valeu Gustavo. Obrigado pela visita e pelo comentário elogioso! Ótima viagem para vc. Qualquer outra dúvida que tiver, não hesite em manter contato.

    Um abraço. Felipe

IsabellaPublicado em  9:42 pm - set 30, 2015

Felipe, seu post sobre Toscana foi ótimo. Iremos no próximo ano. Você tem alguma loja de queijos e frios a indicar em Pienza ou qualquer uma vale a pena? E enoteca?
Abs

IsabellaPublicado em  9:46 pm - set 30, 2015

Felipe, adoramos seu post.
Tem alguma loja de queijos e frios a indicar em Pienza? E enoteca em Montalcino ou Montepulciano?
Abs

    Do Rio pro MundoPublicado em  11:52 pm - out 9, 2015

    Oi Isabella. Em Pienza, ha dezenas de boas lojas pra comprar queijo pecorino de todos os tipos. Em Montepulciano e Montalcino, tb há centenas de boas enotecas. Em Montalcino, vale a visita à Fortezza que tem uma enoteca muito boa de Brunello no andar de baixo.

    Grande abraço, Felipe

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