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Toscana. Incomparável e inesquecível. (Parte 2 – Siena, Monterrigioni, Volterra e San Gimignano))

Toscana. Incomparável e inesquecível. (Parte 2 – Siena, Monterrigioni, Volterra e San Gimignano))

A escritora Elizabeth Gilbert estava coberta de razão quando escolheu a Itália para se dedicar aos prazeres da mesa no ano sabático de sua personagem no romance “Comer, Rezar e Amar”. Certamente, lugar melhor não há. E, nesse aspecto, a Toscana é imbatível. Sem discussão! A culinária é um evento a parte, que tem enorme importância na vida dos locais e que merece total dedicação de quem a visita. Diante de tantas opções maravilhosas, escolher onde e o que comer é quase uma questão existencial e, não raro, terminávamos uma refeição já pensando na outra, quase ignorando solenemente a necessidade fisiológica da digestão, pelo delírio e pelo transe da gula e do vinho.

Há restaurantes chiques e requintados, com elaboradíssimo cardápio gastronômico e também restaurantes de comida caseira, cujas receitas seculares são aperfeiçoadas e adaptadas por “las nonnas e las mamas”. Os ingredientes são especialmente saborosos. Ao provar o tomate, por exemplo, você terá certeza de que nunca comeu essa iguaria anteriormente, muito embora ele (ou algo similar) esteja sempre presente na sua salada. O sabor, a cor, a textura…tudo é diferente! E o mesmo acontece com os outros itens: queijos, salames, temperos, azeite, as trufas. Mama mia…! Quantas coisas deliciosas escondidas atrás dos muros dessas cidades medieviais! O que falar das massas frescas? Simplesmente não há parâmetro de comparação. Elas derretem na boca. Misture tudo, leve ao forno, abra um bom vinho com sua companhia ideal (claro!), eis a receita da mais pura e genuina felicidade. Ah! e nem precisa se preocupar com as calorias, pois há tantas colinas para subir e descer no meio do caminho que elas se vão naturalmente. Bem, quase todas…

Foi nesse clima que chegamos ao Relais Aia Mattonata, uma charmosa mistura de pousada e casa de campo, próxima a Siena, com uma vista exuberante de sua ‘skyline’ de torres, e onde nos hospedamos por quatro dias e noites para visitar os arredores. Fomos carinhosamente recebidos por seus proprietários, Mario e Elizabetha, um simpático casal que toca esse ‘business’ de modo artesanal e pitoresco e que nos dedicou muita atenção com dicas preciosas sobre as cidades, os restaurantes e os melhores trajetos a percorrer, sempre com fornecimento gratuito de mapas, cardápios, cartões e tudo o mais que necessitassemos. Não por acaso, seus maravilhados hóspedes fizeram dele o Hotel nº 1 do Trip Advisor para Siena e arredores nos últimos 4 anos consecutivos. Título merecidíssimo, diga-se de passagem. Fotos abaixo do belo relais:

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Depois de uma merecida noite de descanso, vindos do último post, ops, quer dizer, de Lucca e Pisa, estávamos prontos para visitar Siena. Acordamos então no aconchego do Relais Aia Mattonata. Havia algo muito diferente no ar, além de um fog e de uma leve garoa… meio sonolentos, demoramos algum tempo para identificar esse perfume delicioso de ervas, mas que imediatamente despertou vorazmente nosso apetite. Era um cheiro muito singular de pão caseiro assando no forno que estava invadindo o quarto e nos convidando para o café da manhã.

O tempo  não estava bom. Amanheceu chovendo e com muita neblina. Optamos, então, por começar pela visita à menor cidade de todas que se chama Monteriggioni, localizada na Província de Siena. Essa comuna, como se referem os italianos ao que equivale aos nossos municípios, foi construída em uma colina por volta de 1214, estando rodeada por um grande e imponente muro. Tem grande importância histórica para a região, pois, na idade média, consistia em uma estratégica fortaleza na defesa de Siena em seus conflitos bélicos com Florença. Ao subir no muro e caminhar por parte dele, o que fizemos, é possível entender sua relevância em tempos de guerra.

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De lá, há uma vista magnífica de todo os vales ao redor,  (fotos acima) o que dava aos sienenses uma observação perfeita dos  movimentos de seus inimigos e, consequentemente, a possibilidade de planejar seus ataques e estratégias de defesa. Na visita ao muro, alugamos um audio guia que conta resumidamente as histórias de guerra dessa região, especialmente como se defendiam dos “terríveis” Médicis de Florença. É bastante interessante para quem gosta desse assunto. Além disso, Monteriggioni é culturalmente conhecida por ser mencionada no poema épico de Dante Alighieri, A Divina Comédia. Dizem que o famoso escritor florentino ficou muito impressionado com o local, principalmente por suas altas torres circulares, mencionando-o no Canto XXXI, no decorrer da representação do inferno.

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A cidade é muito, muito pequena mesmo. Tem duas ruas que a atravessam e passam por charmosas casas, lojas variadas, ateliês de arte e restaurantes. A Piazza Roma é sua praça principal e tem um cenário muito peculiar,  com a arquitetura medieval especialmente preservada. Apesar da chuva intermitente, a praça estava bastante animada e cheia de vida. Quando lá estivemos, estava acontecendo um casamento na linda Igreja de estilo romano, o que nos remeteu imediatamente a uma das cenas do filme “O Poderoso Chefão”.

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Partimos, então, para Siena. Lá chegando, paramos o carro em um estacionamento na parte baixa da cidade e subimos até o centro histórico, quando então caminhamos demoradamente pela parte mais disputada da cidade, admirando  suas ruas e construções medievais, as quais foram originalmente habitadas pelos etruscos antes de tornar-se uma colônia romana. Diz a mitologia romana, que Siena foi fundada por Sénio, filho de Remo e sobrinho de Rômulo. Por isso, há pela cidade inúmeras representações clássicas da loba amamentando os dois irmãos. Siena é uma cidade espetacular, magnífica e imponente.

As principais atrações estão concentradas em um grande labirinto de ruas e vielas muito estreitas, ao redor da piazza del campo, que sedia o palazzo pubblico e sua torre do relógio. Aqui ocorre o palio di siena, duas vezes ao ano, sempre nos dias 2 de julho e 16 de agosto. Nesta competição, os 17 bairros (chamados contrades) disputam o Pálio, ou seja, um estandarte criado exclusivamente para cada evento por um renomado artista local ou das cercanias. Antes da corrida, todos desfilam pela praça, com os trajes tradicionais (monturas) e carregando os estandartes. A corrida em si é travada por 10 cavalos, cada um de uma contrada, com cores e hinos próprios, representando as três regiões da cidade. Ganha o prêmio o cavalo que chegar primeiro, após três voltas ao redor da praça, mesmo que o jóquei já tenha eventualmente caído no chão, o que, não raro acontece.

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Nos dias de corrida, a praça é especialmente fechada e o público se posiciona no meio do espaço e também nas sacadas dos edifícios ao redor e, o entorno é coberto por 15 a 20 cm de areia fina, formando a pista. E a pista fica exatamente na parte externa ao centro da praça em formato de leque, conforme se vê na foto acima. As arquibancadas ao redor da praça, nas sacadas dos prédios ficam cobertas de apoiantes organizadose que cantam os hinos de cada contrada e também de turistas que chegam a desembolsar 300 euros por um bom lugar!

Fomos visitar ainda a Pinacoteca Nazzionale de Siena, um museu de arte que concentra obras de vários pintores renascentistas, além do fantástico Duomo, o batistério e um altíssimo mirante em cima da pinacoteca com vistas definitivas da cidade e arredores. Esse riquíssimo conjunto arquitetônico e cultural levou Siena a ser classificada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Acho que as duas belas fotos da karine abaixo, tiradas do alto do mirante próximo ao Duomo, dizem muito mais do que as palavras:

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A boa dica para a visitação do Duomo e suas atrações é comprar o bilhete Siena pass, válido por 3 dias consecutivos, que custa 12 euros e que permite visita a todos os monumentos. Após o mirante, onde tiramos as fotos acima anexadas, fomos visitar o fantástico Duomo, cujo interior, sem sombra de dúvida, é o mais bonito, rico e ornamentado da Itália. O Duomo gótico de florença é muito mais bonito por fora, mas perde de 10×0 em seu interior para a deslumbrante igreja sienense. Fotos do exterior e do interior do Duomo e obras de arte:

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Como já estávamos com fome, fomos almoçar no excelente restaurante San Desiderio, que fica a uns quinze metros, ladeira abaixo, da entrada do complexo do Duomo. Não se esqueça, até como regra geral, que na Toscana, os restaurantes recebem os clientes para o almoço, no máximo, até às 14:30 horas. Após a refeição, devidamente forrados, compramos um sorvete e fomos visitar e nos largar à contemplação da já citada Piazza del Campo, a famosa praça central, em formato de leque angulado para baixo. Este é um daqueles fantásticos locais onde se tem a nítida impressão que o tempo parou, e o visitante passa a ser capaz de lá ficar sentado por horas, em transe, imaginando séculos e séculos de história acontecendo sob seus olhos: Foto dos sorvetes, da praça e de nós na praça:

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Antes de encerrar o giro do dia e partir de volta pro hotel, compramos algumas garrafas de brunellos e super toscanos em uma enoteca próxima à praça. Todos vinhos maravilhosos por um preço 4 vezes menor do que o praticado aqui no Brasil. Surreal a ganância do governo com os tributos e dos importadores com as margens de lucro. Foto na loja, escolhendo os vinhos:

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A noite, no Relais Aia Mattonata, ficamos sentados em uma mesa no jardim, degustando Brunellos di Montalcino e Chiantis, acompanhados de pizza e queijos, conversando animadamente com 4 outros casais, todos mais velhos, na faixa dos 60 anos. Destaque absoluto para um simpático senhor escocês chamado Neal, um cara muito boa praça, rico empresário do ramo farmacêutico, vestindo “kilt”, com um sotaque britânico carregadíssimo, morador de Edimburgo, pai de 4 filhos (assim como eu), que prefere vinho à Whiskey (assim como eu), amante apaixonado de carros, dirigindo um porsche num giro europeu desde a Escócia, de onde tinha partido há cerca de um mês, na companhia de sua esposa inglesa, conhecedor de vários países mas ainda bem na dúvida sobre a conveniência de vir ao Brasil e ao Rio de Janeiro pela questão da segurança (‘security issue’), que muito o preocupa. Como se constata facilmente, tais encontros só são possíveis em viagens e acabam promovendo um intercâmbio cultural e acidental entre iguais tão diferentes…

Começamos o dia seguinte por Volterra, uma espetacular cidade etrusca no alto de uma  colina com os clássicos e espetaculares visuais toscanos, muito destacados neste trecho que pertence ao conjunto do chamado Val d’ Elsa. A visita aqui me surpreendeu muito. Foi um dos locais que mais gostei de visitar. Alguma razão específica? Não, apenas senti um maravilhoso astral.

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Recomendo muito aqui a visita ao Museu etrusco Guarnacci, que tem valiosos exemplos de arte etrusca, sendo um dos mais respeitados museus da região, com obras de arte esculpidas em pedra e esculturas magníficas já trabalhadas em bronze, mesmo há cerca de 30 a 35 séculos atrás. Foto abaixo de uma das esculturas, destaque do acervo, certamente influenciou o renomado Alberto Giacommeti, que usa as mesmas formas longilíneas de represetnação humana. Impressionante imaginar há quanto tempo esse trabalho foi feito:

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Após o museu, demos uma boa caminhada pela cidade, passando ainda pela Piazza dei Priori, parque arqueológico, fortaleza, teatro romano, museu da tortura, e um forte! Na saída, compramos algumas garrafas de vinho toscano indicado pelo dono da enoteca que, embora oferecendo à venda, esnobava os rótulos mais conhecidos e me sugeria pérolas somente conhecidas pelos italianos. Sensacional! Depois, compramos sanduíches feitos na hora, de presunto, salame e queijo e paramos para comê-los sentados no muro de saída da cidade, apreciando a vista antes de rumar para a próxima. Fotos abaixo dos soberbos visuais e da razão do nome Volterra:

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Em seguida, partimos para San Gimignano por uma estradinha cheia de mirantes e pontos de parada e obsrvação, ao longo do belíssimo Val d’Elsa. A estrada é surreal de bonita e, embora a distância seja pequena entre as duas cidades (Volterra e San Gimignano) acabamos demorando um pouco mais de uma hora devido a tantas paradas para tirar fotos. Abaixo, sequência das maravilhosas capturas da Karine pelo caminho, inclusive avistando as Torres de San Gimignano;

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San Gimignano é denominada como a Manhattan toscana e medieval, por suas altas torres, que já foram mais de 100 e que atualmente não passam de 14. Chegamos por volta das 15:30 hs e caminhamos pela cidade e seu maravilhoso centro histórico, totalmente fechado para o tráfico de veículos, a qualquer tempo. Seu ambiente é fantástico, confirmando tudo de bom que falam dela. Impressionante como é preservada, parecendo um mergulho ao passado da idade média. Tem belas praças, igrejas, ruazinhas, e duas lojas na pracinha principal da cidade ( a que tem uma fonte) que disputam o título do melhor sorvete do mundo. Provamos, e não sei  se confirmo o veredito, mas é sem dúvida muito bom o sorvete. Sabor stracciatella, sempre! A Karine provou frutas vermelhas:

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A cidade é realmente muito bonita com suas destacadas torres e seus becos e esquinas muito antigos. Sofre, contudo, de um problema crônico já que, devido à sua fama mundial e à sua super exposição, se tornou um local quase tão visitado quanto, digamos, Veneza, e se tornou por isso, refém de hordas e hordas de turistas que todos os dias despejam sua maciça presença nesta pequena cidade, já levemente ‘puída’ pela presença de tanta gente forasteira. Por ser tão bela e desejada, tornou-se um pouco menos atraente pela quantitade absurda de visitantes. Curioso paradoxo. Essa última frase me foi dita por um senhorzinho nativo idoso dono de uma loja de artesanato que reclamou aos meus ouvidos em alto e bom italiano. Bem, pelo que eu entendi, a queixa era esta. Abaixo, foto típica das placas em uma cidade toscano-etrusca:

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Então, a dica quente aqui é não visitá-la aos domingos, sob nenhuma hipótese, a menos que você não tenha outra alternativa e, se possível, em combinando o roteiro do dia com Volterra, como fizemos, deixe para vir até ela já no meio da tarde, quando a feroz manada dos turistas matinais, com seus tantos ônibus de excursão, já terá partido ou estará por partir. E você verá o local com um pouco mais de tranquilidade. Fizemos isso e deu certo.

Terminamos o dia com um delicioso jantar no restaurante Cum Quibus, (via san martino, 17) o qual muito recomendamos, com um agradabilíssimo ambiente, principalmente a varanda aberta com mesas cobertas por toldos na parte de trás, e um deliciosa comida toscana com menu escolhido na ocasião e composto por insalatta caprese, depois spagheti al tartuffi e steak tartare al tartuffi, tiramissu de sobremesa e um espresso para arrematar. À noite, já tarde, retornamos ao nosso hotel nas cercanias de Siena, encerrando mais um belo dia de viagem.

Continua no próximo post, quando contarei o passeio pela rota do Chianti, na estradinha S 222, com direito a uma parada para degustação de vinhos e visita à vinicola Castello di Brolio, até a chegada em Florença, onde passamos o resto da tarde e noite, e revisitamos muitos dos locais onde haviamos estado em 2004. Então, próxima parada, rota do chianti e firenze. Esta, inclusive, com todos os detalhes ,do passado e do presente. Em breve…

Do Rio pro Mundo

2 pensamentos sobre “Toscana. Incomparável e inesquecível. (Parte 2 – Siena, Monterrigioni, Volterra e San Gimignano))

Sonia FortesPublicado em  12:58 am - jul 30, 2013

Felipe,
muito obrigada por proporcionar essa belíssima viagem de sonhos aos seus amigos e “ao mundo”. Parabéns à Karine pelas fotos espetaculares. Para quem está querendo perder peso, como eu, ver aqueles sorvetes e relembrar o tiramisù daquelas plagas foi de doer…
Dante pode ter imortalizado Monterrigioni, imaginando os raios de Júpiter caindo sobre as gentes, em seu círculo de torres, mas quem visita hoje a Toscana vai lembrá-la muito mais pelos vinhos inigualáveis e a culinária preciosa. Parabéns aos dois.

Do Rio pro MundoPublicado em  4:00 am - ago 4, 2013

Sônia,

Você é uma grande especialista em Itália. Então, se gostou deste post é sinal que estou no caminho certo….

Obrigado uma vez mais por suas palavras carinhosas,

Felipe

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