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Cracóvia: Jóia medieval polonesa que deu ao mundo o primeiro Papa não italiano.

A Polônia foi a segunda escala de nossa viagem pelo Leste Europeu. Chegamos em Cracóvia as 6 e 30 da manhã, após uma noite razoavelmente bem dormida na cabine dupla do trem noturno que nos trouxe de Budapeste. A antiga Capital do reino é o lugar onde João Paulo II, nascido na pequena cidade de Wadowice, se tornou arcebispo e surgiu para o mundo. Mas, além disso, é um lugar memorável que ficou acima de nossas expectativas e onde passamos 3 dias incríveis. Roteiro repleto de muita atividade cultural, idas à cafés e restaurantes modernos, livrarias, museus, igrejas góticas, parques, uma mina de sal, dois campos de concentração marcantes para a história da humanidade e ainda a maior praça da Europa.

Cracóvia é tão bonita mas tão bonita que até os nazistas que a ocuparam desde o início da 2a guerra mundial e lá montaram uma espécie de quartel general, tiveram pena de bombardeá-la e destruí-la. Ao contrário da Capital Varsóvia, totalmente aniquilada ao longo do conflito, a segunda cidade polonesa foi preservada e mantida em suas características originais, principalmente o seu precioso centro histórico, autêntica jóia medieval. Sorte da Polônia e também do resto da humanidade, que pode conhecer e desfrutar esse lugar delicioso e que permanece com sua parte antiga quase intocada como há 800 anos atrás.

É a “cereja do bolo” e principal polo turístico do país. Antiga e preservada, tem lugares variando entre a história e a modernidade, sempre repleta de visitantes e com um contagiante clima universitário e científico de encher os olhos e a alma. É o grande centro cultural e intelectual da Polônia e, guardadas as próprias peculiaridades e proporções, poderia ser comparada com Praga há 25 anos atrás, antes do boom de turistas que a tornou praticamente inviável.

Ficamos no ótimo Metropolitan Hotel Boutique durante 3 noites. O estabelecimento conta com um ambiente familiar e uma atmosfera muito agradável. Tudo é muito limpo e bem apresentado para os hóspedes. Quartos muito confortáveis e destacado café da manhã. A localização é boa e muito próxima do bairro judeu kasimierz, lugar moderno com a sua famosa vida noturna de bares, clubes de discoteca e restaurantes. Mas pode não ser a melhor opção se a pessoa pretende ficar ao lado de old town, wawell hill e da praça do mercado. Fica a cerca de 15/20 minutos a pé dessa parte. Nada que atrapalhe.

Cracóvia não integra o circuito básico do roteiro do leste europeu que os brasileiros costumam fazer e que geralmente passa apenas por Praga-Viena-Budapeste. Mas vale incluí-la nessa exata viagem porque encaixa perfeitamente bem no trajeto.

A cidade foi um importante entreposto comercial europeu medieval e era cruzada pela maioria das antigas rotas mercantis e estradas do velho continente. Sua fundação remonta ao ano de 700 d.c. e ela foi a sede administrativa e política do país entre 1320 e 1596. Pede entre 3 e 4 dias para poder ser conhecida. Melhor 4. Nesse intervalo, já pode contar um dia para conhecer os campos de concentração mais famosos da história ou uma das maiores minas de sal da Europa. Quem sabe até os dois passeios em conjunto, que podem ser conjugados num único dia bem comprido, se for o caso.

Começamos por Wawel Hill e seu denominado Castelo que fica bem no topo de uma montanha com belas vistas da cidade. Junto com o centro antigo e o bairro judeu, integra o conjunto das 3 principais visitas em Cracóvia. (Sem contar os tours para auschwitz/birkenau e para a mina de sal). Reserve aqui uma manhã ou uma tarde para fazer tudo com calma. Suba as encostas, visite a catedral e o panteão de pilsudski e demais heróis poloneses no subsolo da igreja, suba a torre e veja o sino mais antigo da região, visite o museu com objetos pessoais de João Paulo II, caminhe pelos jardins ao redor, visite o terraço interior atrás da igreja em estilo florentino renascentista e depois sente no bar/restaurante situado no local e relaxe tomando uma cerveja típica acompanhada por uma porção de pierogis, os bolinhos de massa assada poloneses com os recheios mais variados. E de lá fique curtindo o belo visual dos arredores quase debruçado sobre o rio vístula. Fotos do portão de entrada e dos arredores em Wawel Cattle Hill, o grande sino da catedral, a vista lá de cima e a taça de cerveja:

Uma curiosidade sobre a área situada no pátio interno do castelo de wawel. Trata-se de um lugar místico e sagrado para a religião hindu. De acordo com o conceito de chakra, como sendo uma energia poderosa que conecta todas as formas de vida, os seus adeptos creem em 7 pontos deste chakra situados no corpo entre a cabeça e os pés. E, espelhando esses 7 pontos do corpo humano, haveria 7 locais sagrados ao redor do planeta onde está energia vital estaria mais concentrada, conectada e potente. São eles Déli, Delfos, Jerusalém, Meca, Roma, Velehrad e Wawel!!! Sem dúvida, ainda que a pessoa não seja adepta do hinduísmo e ignore esse ritual, vai ser uma bela maneira de começar a jornada por Cracóvia. Foi por ali mesmo que começamos também. Foto abaixo do exato ponto no pátio interno onde, segundo a crença, a energia está em alta. É comum ver grupos de indianos peregrinando no lugar. Nós vimos alguns, mas por respeito, optamos por não fotografá-los no transcurso de seu ritual:

A Polônia é um dos países do mundo mais adeptos do Catolicismo e mesmo quem não é tão ligado nessa coisa de religião acaba se emocionando com toda a aura e o astral desse lugar. Wawel é uma montanha sagrada para os poloneses, onde tudo envolve e evoca, mormente no entorno da Catedral, o nome de um de seus filhos mais ilustres que se transformou no papa João Paulo II e depois em santo da igreja, Karol Wojtyla. Karol aliás é um pop star total na Polônia, o maior ídolo do povo e motivo de orgulho do país, sendo que sua imagem está por todos os lados.

Após o passeio por Wawel, descemos caminhando e fomos curtir o centro histórico passando pela Rota Real. Esta rota começa na famosa rua Florianska, uma das principais da cidade, onde fica a única das quatro torres que sobraram do antigo e original muro de proteção da cidade medieval.

Aqui vale sentar um pouco no meio-fio e ficar relaxado curtindo os quadros pendurados nos muros pelos múltiplos artistas de rua que expõem e criam uma verdadeira galeria de arte a céu aberto ao longo da famosa via.

Caminhando mais adiante a pessoa chega até a praça central, aquela que é a maior do continente. Um colosso! Essa praça é realmente demais. Linda e enorme. Seu nome oficial é Rynek Glowny. Ela é gigantesca mesmo. O bacana lá é ficar sentado e observando o movimento e a arquitetura do lugar. Tem que ir ao menos uma vez de dia e outra de noite. Tem de tudo lá. Igrejas antigas. Restaurantes e bares pega-turista, lojinhas de souvenir e um mercado que funciona no meio da praça em uma área coberta que parece dividir o espaço em duas grandes partes. Chafarizes. charretes com belos cavalos para que os turistas possam dar um passeio, artistas de rua executando suas variadas performances, pombos (sempre muitos deles) voando e pousando e voando novamente, além de jovens e belos estudantes poloneses de todas as idades que ao longo do dia nos intervalos ou no fim de suas aulas ficam de bobeira na Praça, curtindo um papo, uma brincadeira ou uma paquera. A grande praça é o point da cidade, onde todo mundo passa, vê e é visto. Dá pra ficar por lá o dia inteiro só vendo o movimento e curtindo.

Nesse dia, fomos visitar ainda um interessante museu na Praça que conta a história da cidade. Chama-se Rynek Underground e fica Localizado a quatro metros de profundidade sob o edifício que sedia o mercado da praça. Legal a visita neste museu localizado em uma escavação arqueológica que reúne exposições interativas, vídeos e itens procedentes dos tempos medievais para levar seus visitantes a uma viagem no tempo recriando a atmosfera do local em plena Idade Média, quando a cidade era um dos entrepostos comerciais mais importantes da Europa. Foto bem na entrada do museu que fica à direita e desce ao subssolo:

Quando bater aquela fome, ao redor da praça antiga, principalmente nas ruas próximas, dá pra se resolve bem pois lá funcionam vários bons restaurantes que servem comida típica e que permitem uma bela refeição. Nós fomos a alguns deles ao longo de nossos três dias na cidade e vale citar e recomendar dois deles. No primeiro dia, após intensa programação, fomos jantar no restaurante Miod Malina. Situado em uma rua adjacente e perpendicular à praça principal, seguimos a indicação de vários guias de viagem e fomos fazer nossa refeição noturna nesse restaurante ítalo-polonês. Fica no interior de uma construção mais antiga e oferece um ambiente muito aconchegante e acolhedor. Serviço um pouco lento mas a comida estava deliciosa! Pedimos uma sopa de entrada com linguiça, bacon e ovos cozidos servida dentro de um pão, que servia como tigela. Uma delícia. De entrada, a boa é pedir os famosos pierogis poloneses. Pra quem não sabe, pierogis são algo como uns pequenos pastéis de forno empanados de massa muito fina e com ótimos recheios de queijo, carnes e cogumelos. O restaurante tem uma ótima carta de vinhos e bebidas, sucos e refrigerantes. Além de tudo, outro ponto positivo é que não é muito caro, sendo uma ótima relação custo-benefício. Faça reserva pois está sempre bem cheio. Fotos do pão com a sopa dentro e de um prato típico de comida polonesa com os pierogis e muita carne de porco:

Outro restaurante que recomendo bastante foi um que almoçamos no último dia na cidade, chamado Pod Aniolami. Ele também fica perto de tudo e situado em uma das ruas principais da cidade, que liga wawell hill até a praça antiga. O ambiente é muito agradável, no interior de uma casa rústica e medieval. Tem mesas fora e dentro com dois ambientes distintos, um no primeiro piso no interior da casa e outro no subsolo, junto a uma bela adega subterrânea. A comida estava muito boa com destaque para a entrada tipicamente polonesa, a famosa pierogi mista. Boa carta de vinhos com boas opções locais de brancos, tintos e rosés. Pedimos um branco da uva Seyval Blanc que estava muito saboroso. Bons pratos de carne (destaque para um filé delicioso ao molho de gorgonzola, com espinafre refogado e batatas ao forno.) e peixes. Se estiver com pressa não vá, pois o local tem o objetivo de oferecer um serviço calmo e sem correria. Abaixo, fotos da linda Cracóvia e sua grande praça em momentos de fim de tarde e à noite:

No intervalo entre o primeiro e o terceiro dia na cracóvia fizemos um passeio nos arredores visitando duas atrações essenciais que podem ser conjugadas no mesmo dia. Os arrepiantes campos de concentração Auschwitz/Birkenau e as Minas de Sal Wieliczka. Ambos serão tema de relato próprio. Foto de Rynek Glowny e a catedral:

No nosso último dia, antes de voltar pra Praça e ficar largado por lá, fomos conhecer o outro lado da cidade e do rio. Os bairros judeus de Kasimierz e Podgorze, que estavam próximos ao nosso hotel. Antes da Segunda Guerra mundial, Kazimierz era o bairro que reunia toda a comunidade judaica na cidade. Com a chegada dos alemães e das tropas nazistas, todos os judeus foram paulatinamente forçados a deixar suas casas e se mudar para Pódgorze, onde foram segregados por um muro construído às pressas. Além dessa parte histórica, os bairros são conhecidos pelo agito noturno e pelo movimento de comércio, feirinhas, bares e restaurantes. Em Kazimierz, ficam três das seis sinagogas que restaram na cidade. Depois de visitar o bairro hebreu, fomos cruzar a ponte sobre o rio vístula. Fotos do bairro Kasimierz com a feira e produtos antigos (espécie de mercado das pulgas) e da ponte com os cadeados trancados.

Após cruzarmos a ponte, chegamos ao museu de Oscar Schindler, antiga fábrica que serviu de cenário para o filme A Lista de Schindler, que conta a história desse industrial que ajudou a esconder e salvar mais de 1200 judeus até o fim da guerra. Use um mapa após cruzar a ponte pois é meio complicado o caminho a pé pelas ruelas emaranhadas para chegar até o museu. Abaixo, duas fotos com alguns detalhes da exposição:

Foi o melhor museu sobre a segunda guerra que eu já visitei. Reconhecido em guias e sites como o melhor da Polônia e um dos melhores da Europa sobre este tema. A exposição funciona na própria fábrica onde o ex-nazi Oscar Schindler empregou uma série de judeus que viviam no gueto de cracóvia e acabou salvando suas vidas, como dito antes. O museu conta a história e retrata a situação da cidade (e principalmente da comunidade judaica) antes, durante e depois da guerra. Exposição muito bem organizada com fotos, vídeos, painéis interativos e objetos históricos além de alguns cenários otimamente recriados. Textos bem explicados em inglês otimizando a visita e relatando todo o drama, a tensão e a angústia experimentados pelos cidadãos da cidade, que foi invadida, ocupada e tomada, ficando sob o domínio alemão por quase 06 anos, já que os nazistas instalaram um quartel general de comando do terceiro reich nesta região. Vale muito a visita. Custa 21 zlots a entrada e tente reservar no mínimo 2 horas para poder cobrir com calma a exposição. Muitos textos para leitura e compreensão do panorama histórico. Não pode deixar de ser visitado.

Ao sair do museu, fomos visitar a Heroes of the Guetto Square, uma praça ocupada por várias esculturas de cadeiras coladas ao chão ao redor do espaço e que simbolizam os pertences dos judeus que, durante a mudança forçada de Kazimierz, foram abandonados e destruídos ali, pois não couberam nos apertados apartamentos destinados às numerosas famílias.

Cumprida a parte histórica, voltamos de táxi pra Rynek Glowny e ficamos matando o tempo restante até a hora de apanhar o trem para Viena, etapa seguinte de nossa turnê pelo leste europeu…