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Split: O belo refúgio do Imperador Diocleciano, o perseguidor de cristãos.

Split: O belo refúgio do Imperador Diocleciano, o perseguidor de cristãos.

A Croácia seguia nos impressionando a cada novo movimento. Ainda bem barata, quando comparada com outros lugares europeus, reúne uma incrível mistura de parques naturais, praias fantásticas e sítios históricos de épocas bem remotas da humanidade, desde a civilização grega, passando pelo império romano, o período de influência otomana e, mais recentemente, o próprio reino da Iugoslávia. Finalizada a etapa em Trogir, fomos um pouco adiante para visitar uma outra cidade de muito destaque e prestígio em quase todos os roteiros.

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Split, que não podia ser diferente das anteriores, em relação à ótima impressão causada. Ela mistura harmonicamente uma bela orla, exuberantes paisagens, gente bonita, intensa vida noturna, edifícios modernos e antigos em contraste e muita, mas muita história. Entregamos o carro em definitivo no aeroporto, que fica a apenas 4 km de Trogir. Na alta temporada, no verão, entre final de Maio e meados de setembro, o aeroporto zračna luka split-kaštela recebe vôos oriundos de todas as principais cidades europeias. Em seguida, pegamos um táxi e fomos direto para o centro, enfrentando uma certa dificuldade para encontrar nossa hospedagem, que ficava em um apartamento bem na orla, ao lado do palácio diocleciano. Foi dificil como achar agulha no palheiro. Mas encontramos. Descobrirmos essa hospedagem pelo Booking. Chamava-se Riva Luxury Suites. Foto  com a vista do local de nossa hospedagem.

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Pois bem, a segunda maior cidade do país não é apenas um lugar de chegada e passagem rápida rumo à exploração das muitas ilhas ao redor na Dalmácia. Até houve um período, há uns 15/20 anos atrás em que era assim. (E por isso dizem que a cidade ainda carece de uma maior gama de bons hotéis) Mas, hoje em dia, as coisas estão diferentes e o lugar recuperou o seu pleno potencial turístico, atraindo muitos visitantes, independentemente também de estes estarem buscando ou não um outro destino. Split é uma cidade vibrante e essa energia contagia a todos.

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Portanto, não encare Split como um mero porto de trânsito. Se fizer isso cometerá um equívoco grosseiro. Vá tratando de repensar o seu roteiro. Split tem identidade própria e justifica uma permanência de, no mínimo, 2 noites para que se possa dela extrair, da maneira mais básica possível, tudo o que tem a oferecer. Diria ainda mais. Visitar Split é mandatório e essencial qualquer que seja o seu roteiro croata. Rivaliza apenas com Dubrovnik e com Hvar. Esses três locais, além do parque plitvice, estão em um patamar acima das demais atrações, apesar de Zadar, Krka, Trogir e Zagreb também serem excelentes. A cidade converge toda em função do centro histórico, da magnífica Riva (orla) com suas palmeiras em fila e do Palácio Diocleciano, apesar de não se resumir apenas a isso. Mas, acredite, isso é o que interessa na visita.

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A cidade está umbilicalmente unida a esse nome, Diocleciano. E quem foi esse cara, afinal? Foi um Imperador Romano entre os anos de 284 e 305 depois de Cristo, conhecido por imprimir uma severa perseguição aos cristãos. Nascido na própria Dalmácia, nos arredores de Split, comandou uma das épocas de maior apogeu e extensão territorial de Roma, com domínios de terra que iam desde os confins do Egito até Londres. Uma enormidade. Megalomânico e narcisista como poucos, após abdicar do trono, em favor de Constantino, -(este último também famoso por finalmente anistiar os cristãos e reconhecer o cristianismo como religião oficial do regime), – mandou construir para sua aposentadoria e fim da vida esse famoso e suntuoso palácio no que hoje é a cidade de Split, defronte a orla magnifica do Mar Adriático.

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Apesar de ter sofrido algumas modificações em relação ao seu primeiro lay-out, datado de quase 2000 anos atrás, o espaço destinado ao palácio que serviu de moradia para Diocleciano no seu retiro voluntário, ainda mantém grande parte de sua estrutura original, com as extensas muralhas formando um amplo quadrilátero bem em frente da orla, ocupando uma área colossal de 215 metros de frente por 180 metros de profundidade. Um gigantesco quarteirão. As paredes das muralhas defensivas possuem 2 metros de expessura por 25 metros de altura nas partes mais altas. O perímetro do palácio com sua integração junto ao centro antigo e histórico (stari grad) foi declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO no ano de 1979. Na foto abaixo, na riva, atrás das palmeiras em fila, é possível ver toda a estrutura frontal das muralhas do palácio.

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E cada um dos lados da enorme fachada ainda mantém o seu respectivo portão. São 4, a saber: portão de ouro (zlatna vrata), portão de ferro (željezna vrata), portão de prata (srebrena vrata) e portão de bronze (mjedna vrata). No interior, está entrecortado por ruas e vielas estreitas de pedestres, sendo as duas principais chamadas de Cardo (a via que conecta a entrada principal ao coração do complexo) e Decumanus (leste para oeste) com a presença de lojas, restaurantes, bares, agências bancárias e outros estabelecimentos comerciais. Importante deixar claro que não se trata de um palácio fechado onde a pessoa paga um tíquete, entra e visita. Eu achava isso. Mas não! O palácio diocleciano era fechado na época de seu morador mais ilustre. O espaço hoje faz parte da própria estrutura da cidade e as pessoas circulam normalmente por dentro de suas dependências, trabalham, se entretém, vão à catedral rezar e algumas até moram em apartamentos adaptados na estrutura do que foi o antigo palácio. A cidade, assim, se mistura harmonicamente entre o antigo e o moderno, entre o passado e o futuro. Foto do portão de bronze, em uma das laterais. Fotos abaixo dos portões de bronze e de prata:

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Obrigatório ver e também cruzar esses 4 portões de entrada ao palácio. O mais famoso é o portão de ouro, que fica na parte de trás da fachada, voltado para o norte da cidade. O Portão do Norte, ou Golden Gate, era a entrada principal do palácio no século IV dc e sempre foi a mais gloriosa de todas as quatro entradas, sendo grande o suficiente para comportar o ingresso de uma carruagem puxada por cavalos. Além de ser o mais bonito e imponente, tem o apelo visual de estar acostado à famosa e enorme estátua de bronze de Grgo Ninski, padroeiro da cidade e grande responsável pela introdução do alfabeto croata e difusão da fé cristã (católica) na Croácia. obra do magnífico escultor croata Mestrovic, artista de reputação internacional e que tem um museu inteiro na cidade, e outro em Zagreb, para serem visitados. A estátua é um lugar excelente para tirar fotos. Diz a lenda que, se você tocar o dedão do pé da estátua, (à esta altura já desbotado de tanto as pessoas passarem a mão) e fizer um desejo, ele se tornará realidade. Na dúvida, foi o que fizemos! Fotos abaixo da escultura e do portão:

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No que era a área central do palácio, existe o maravilhoso espaço conhecido como Peristilo, algo como uma praça (aqui remanesce a maior parte das ruínas palacianas) contendo várias relíquias artísticas e arquitetônicas. Bem no centro deste espaço, em um belo edifício de estrutura octogonal existiu o mausoléu de Diocleciano, que depois, com a queda de Roma e a morte do temido imperador, foi transformado na Catedral de Saint Domnius – katedrala Sveti Duje-, templo religioso para as pessoas professarem sua fé católica. Dizem que o povo tinha tanto horror ao ex-governante que exigiu a transformação da finalidade do prédio e não se sabe até hoje onde foram parar os restos mortais de diocleciano. Defronte à praça do peristilo, ao sul, a entrada nababesca para a ala onde se localizavam os aposentos do imperador (foto abaixo).

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Além das ruínas preservadas, há ainda no local uma esfinge egípcia bela e imponente. E, do alto da torre da catedral, cujo acesso ao topo se dá bem ao lado, uma vista fenomenal das ilhas, da cidade e das montanhas ao redor, que serão mais bem explicadas abaixo. À esquerda do peristilo, em linha reta da catedral para o oeste, o edifício denominado templo de Júpiter, onde se localiza o batistério. Esse nome teve uma razão de ser. Júpiter, segundo a mitologia era o deus dos deuses. Assim, Diocleciano se autoproclamou o representante de Júpiter para Roma. Coisa de megalomaníaco narcisista! Atrás, no sentido norte, o portão de ouro e a já citada estátua de grgo ninski.  E, por fim, na frente do palácio, a maravilhosa orla, ou Riva, fechada ao tráfego de carros e demais veículos automotores, com o nome oficial de Obala Hrvatskog Narodnog Preporoda. Fotos de arcos e ruínas do Peristilo e da esfíngie abaixo:

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O visitante que chega na cidade tem que começar seu giro caminhando e se misturando ao povo dentro das dependências do palácio, tentando entender como a coisa funciona e imaginar a situação há dois mil anos atrás. Após circular e dar um tempo à toa no peristilo apreciando a arquitetura e os monumentos, fomos enfrentar a torre da catedral. E, quando subíamos as longas escadarias para o alto do campanário que, repito, oferece a grande recompensa, talvez o melhor visual aéreo da dalmácia, ou seja, uma vista matadora de 360 graus da orla, do mar, das montanhas, da cidade e das ilhas, ocorreu um episódio curioso. Faltando umas poucas dezenas de degraus para o topo, quando passávamos bem defronte aos 2 enormes sinos, eles começaram a tocar e a balançar de modo frenético, gerando um som ensurdecedor que se fazia acompanhar de vibrações veementes.  Isso, somado à ausência de um parapeito mais adequado no trecho final (onde qualquer desequilíbrio é queda livre) gerou uma sensação de grande desconforto. Se você tem fobia de altura não suba de forma alguma. O visual lá de cima, entretanto, é um prêmio a todo o esforço. Abaixo, algumas fotos panorâmicas:

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No dia em que lá estivemos celebrava-se o aniversário de San Dominus, o padroeiro da cidade, que também dá nome a já citada catedral. Quando descemos da torre, ainda tremendo com o balançar dos sinos de 3 toneladas cada, outra curiosidade, a catedral estava fechada para visitas pois iria começar em instantes a missa de celebração somente para os cidadãos e poucos convidados (os seguranças ainda assim foram gentis e nos permitiram uma rápida entrada para uma espiada e uma foto). Exatamente quando dávamos meia-volta volver, dois cardeais da alta cúria romana passaram ao nosso lado, um deles o famoso cardeal Tarcisio Bertone, ex arcebispo de Gênova e atual camerlengo da igreja católica e um dos que eram mais cotados para ser papa ao inicio do último conclave que aclamou o nome de Bergóglio, o papa Francisco. Abaixo, outra foto do alto e uma do interior da catedral.

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Após exaurirmos a área do palácio, colado à sua estrutura original, visitamos a belíssima praça do povo, (narodni trg) com uma arquitetura influenciada pelo período de dominação veneziana e também pelo período do império austro-húngaro e com um chão todo em mármore branco, parecendo uma grande sala de estar a céu aberto, com gente bonita transitando e sentada em seus bares, cafés e restaurantes. O edifício mais bonito dessa praça totalmente em estilo art-nouveau, retrata a influência desse período.

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Em seguida, voltamos à orla e caminhamos para a esquerda até a praça da república –trg republike– a maior de split, com belos edifícios em uma fachada uniforme estilo renascentista, fechada em 3 de seus 4 lados, sendo aberta apenas na parte frontal, que dá para o mar e para quem chega caminhando pela riva. Nesta praça ocorrem comícios políticos, manifestações de toda a natureza e também apresentações artísticas e shows de música: Foto abaixo do edifício da praça do povo e da perspectiva da linda praça da república:

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Em seguida, por dica dos locais, fomos assistir ao pôr-do sol do alto de um mirante onde funciona o bar chamado Vidilica cujos terraços oferecem vistas panorâmicas estonteantes. Não perca esta subida, fica na região de Marjan e o acesso é por uma ladeira quase ao lado da praça da república. A ele se tem acesso após uma breve caminhada de subida que dura cerca de 15 minutos. Após a contemplação, já escuro, descemos e jantamos no ótimo restaurante Sperun, situado nas cercanias, que serve típicos pratos da culinária dálmata. Foto abaixo do lindo visual, de onde se pode ver a orla, as árvores, as montanhas, o porto, a torre do sino da catedral em destaque central e os detalhes da fachada e do interior da área do palácio diocleciano:

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Para auxiliar na compreensão de tudo o que foi escrito acima nesse post, coloco abaixo uma foto contendo o mapa dessa parte central de split. O peristilo está marcado com um ícone em roxo com a letra i. Fácil identificar a Riva, os muros que delimitam a área do palácio e os seus respectivos 4 portões de acesso (lembrando que o portão de ouro fica na parte de trás bem em frente à área verde e com o símbolo da estátua do escultor mestrovic). Fácil encontrar e compreender também a situação geográfica da praça do povo contígua ao palácio e da praça da republica:

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No dia seguinte acordamos bem cedo, arrumamos as malas e partimos de Barco (speed boat), rumo à Hvar. Fazia um belo dia de sol, o que tornou ainda mais agradável a navegação de cerca de 1h e 10 até Hvar Town. A foto abaixo mostra nossa derradeira visão de Split na partida. Pode-se ver a torre da catedral de saint domnius bem à direita na foto, Não sabíamos ainda, tão somente desconfiávamos. Mas algo grandioso nos aguardava nas ilhas…

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Do Rio pro Mundo

5 pensamentos sobre “Split: O belo refúgio do Imperador Diocleciano, o perseguidor de cristãos.

MárciaPublicado em  2:21 am - jul 17, 2015

Oi Felipe
Valeu pelo belo post de novo. Uma pergunta: vamos deixar o carro alugado no aeroporto de Split, sabe como faço pra chegar em Riva, Old Town, onde ficaremos hospedados e visitarmos a cidade? Muito obrigada!

Vanessa CavalieriPublicado em  8:10 pm - abr 13, 2017

Felipe, me dá uma opinião. Estaremos descendo de carro desde Zagreb com as duas crianças. Vale a pena devolver o carro em Split e ir para Hvar de barco? Neste caso, o carro em Hvar é imprescindível? Como seguir de Hvar para Dubrovnik, em seguida? Dá para ir de barco também ou tem que ser carro?

    Do Rio pro MundoPublicado em  2:43 pm - abr 16, 2017

    Oi Vanessa. Boa tarde, tudo bem?

    Bem, sem dúvida acho q a sua melhor opção é devolver o carro em Split e partir de barco para Hvar Town. Existem ferries q permitem o transporte do carro do continente para a ilha. Esse ferry te deixa em stari grad que é uma cidade mais a leste na ilha de hvar. Mas eu não faria desse jeito. Largaria o carro em Split e depois rumaria no barco direto para Hvar Town. Reserve ao menos uns 3 ou 4 dias lá e não perca o passeio de barco das tres grutas e tb o passeio para a praia de Zlatni Rac em Bol. Nos demais dias explore Hvar Town e a ilha.

    Eles alugam carros em hvar town por períodos de meio dia ou 1 dia inteiro sem burocracia nem papelada e com isso vc pode alugar apenas 1 dia e conhecer de carro outros pontos da ilha e passar pela bela estrada panorâmica. Isso será suficiente. (Só tem uma estrada em Hvar). Sobre a ida para dubrovnik acho até que tem o ferry da Jadrolinija em alguns dias da semana mas não vale a pena de jeito nenhum pois o trajeto é muito longo e cansativo (umas 8 a 10 horas).

    Volte pra Split e alugue novamente o carro ou então contrate um transfer na split excursions. Eu quando voltei de hvar contratei um tour privado por essa empresa que nos levou à Bósnia Herzegovina para visitarmos Sarajevo e Mostar e nos deixou em Dubrovnik. Com isso acabamos “matando 2 coelhos com a mesma cajadada”.

    Se vc for de carro pra dubrovnik haverá um trecho da estrada no litoral onde vc entrará na Bosnia necessariamente. Nada de mais problemático. São uns 20 km pela bosnia em Naum. Duas fronteiras rápidas e sem burocracia. Uma para sair da Croácia e outra para reentrar. As vezes carimbam o passaporte. Outras, não.

    Não deixe de considerar ainda um day tour em Montenegro desde Dubrovnik para conhecer a baía de Kotor que é espetacular e imperdível. Bem. É isso.

    Um abraço, Felipe

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