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Dicas de viagem para a Provence e Côte d’ Azur: Uma fábula – Parte1

Dicas de viagem para a Provence e Côte d’ Azur: Uma fábula – Parte1

A Provence é um lugar bucólico, ensolarado e alegre, repleto de prazeres simples e frugais a serem desvendados pelo viajante, onde a felicidade é captada em cada recanto, numa infinita descoberta de pequenas vilas, com distintos microclimas e sensações. Sua marca registrada é a inigualável paisagem, pintada pelo florescer da lavanda, fenômeno que ocorre geralmente no final da primavera, gerando inúmeros tons de roxo e lilás, que se misturam harmonicamente ao verde dos campos, para causar um impacto visual capaz de fazer balançar o mais cético dos observadores.

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Some-se a isso o inigualável clima mediterrâneo que sopra uma deliciosa brisa fresca e transforma o cotidiano desse povo em algo o mais tranquilo e agradável possível, influenciado ainda pelo desprender do perfume dos campos e das cores ondulantes. Acho que se vivesse aqui, duraria até os cem anos! E olha que nem cheguei a falar que este pedaço de chão ainda dispõe de excelentes vinhos e de uma rebuscada gastronomia! Parece um dos paraísos na terra. E é!

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Acho que os pintores impressionistas descobriram esse segredo bem antes de mim, tanto que boa parte deles se mudou pra cá ou ao menos dedicou uma parcela considerável de seu tempo de vida para ficar aqui. Além de Cézanne, nativo destas terras, Renoir, Monet, Matisse, Picasso e Van Gogh, dentre outros, tiveram parte de suas biografias vinculadas à Provence. Por outro lado, não sei se o gênio Beethoven andou por essas bandas, mas fazer turismo nessa região é como ouvir permanentemente a magnífica sexta sinfonia de sua inigualável obra, a Pastoral!

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Elegemos como base de nossa estada a cidade de Gordes, da qual falarei no próximo post, que fica na região do Luberon, o que veio a se revelar uma acertadíssima opção, embora haja outras inúmeras vilas que podem servir de apoio para exploração. Dica fundamental para explorar a provence: não se imponha jamais o ônus de tentar conhecer todas as cidades. Não tenha essa pretensão, pois isso será impossível e gerará stress. Abaixo, uma foto da “fachada” de gordes e o vale do Luberon.

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Acho que 7 dias é o tempo perfeito (e mínimo também) pra explorar a região. Isso sem contar a parte da riviera azul. Dê preferência à qualidade em relação à quantidade. Duas pequenas cidades por dia bastam. As respectivas paisagens, embora distintos os microclimas, como já dito, possuem aspectos bem semelhantes entre si, o que faz com que todas tenham o DNA provençal em comum, apesar de cada uma ostentar sua beleza e algumas características próprias, satisfazendo assim a curiosidade do visitante, deixando a melhor das impressões e um evidente desejo de retorno próximo.

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Eu, obviamente, vou contar e dar dicas sobre as cidades que fiz, todas muito boas e recomendadas, mas nada impede que você eleja algumas outras. A liberdade do roteiro, ainda que relativa, sempre traz dignidade e independência ao viajante, que deve reservar ao menos uma parcela do seu tempo, para tentar suas próprias e inéditas descobertas, mesmo que venha a se arrepender delas depois. Isso faz parte da arte de viajar! Quem se perde, na verdade, acaba melhor se encontrando ao final.

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Você já deve estar se perguntando qual a melhor opção para chegar lá. Por Paris é sempre mais fácil e prático. Bem, no meu caso, após a descida de um vôo de conexão no aeroporto de Orly, em que a bagagem de minha esposa grávida não desembarcou conosco, seguido de um rápido almoço em um bistrô, nos dirigimos ao Gare de Lyon, estação de trem parisiense, servida por maravilhosos TGVS, a única na capital da França para destinos rumo ao sul, como Lyon, Marseille, Aix-en-provence e Avignon. A quem eleger gordes como base,  como eu fiz, acho que chegar em avignon me parece a melhor alternativa.

Chegamos em Avignon por volta das 16:30 horas e retiramos o carro em uma das inúmeras locadoras disponíveis na própria estação de trem. Acho até dispensável dizer que alugar um carro nesta viagem é ítem de primeira necessidade, pois sem carro na provence, você estará em maus lençóis. E, por favor, com GPS!

Abro aqui um breve parêntese para fazer um registro histórico desta cidade, pois Avignon já foi em um passado longínquo da idade média a sede provisória da igreja católica entre os anos de 1309 e 1377, quando então a representação papal foi restabelecida em Roma por Gregório XI. Aqui, vale a visita ao Palácio dos Papas, principal atração da cidade. Outra curiosidade sobre o local é que nesta área, produz-se um vinho muito famoso, cuja origem surgiu como uma homenagem ao período acima mencionado. O vinho é o Chateauneuf du Pape, (castelo novo do papa), oriundo do sul do vale do Rhone.

Estávamos sozinhos, pois os casais que fariam o trajeto conosco tinham chegado no dia anterior. Já em Avignon, encontraríamos com eles à noite no hotel. Mas, esse encontro quase não se deu…

Tínhamos reservado uma pousada próxima à Gordes e, após uma breve visualizada em Avignon, rumamos no final da tarde com destino a nosso pouso. Um estabelecimento de nome “Mas des Etoiles”. Pousadas como esta é o que mais há na provence  (e a Mas des Etoiles é deslumbrante) e recomendo que se opte pela hospedagem nesse estilo! Talvez não nesta! E digo o porquê.

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Bem, o episódio da chegada foi curioso e surreal, pois após errarmos seguidas vezes o caminho, mesmo com auxílio do GPS, que pelo visto também estava perdido, finalmente nos certificamos, incrédulos, que o local de nossa estada era uma casa fechada e apagada em um terreno totalmente escuro, já não havendo como entrar porque todos aparentemente dormiam. Dica: não chegue para se hospedar na provence em um horário muito tardio, sem avisar ao seu hotel, pois fatalmente você terá grandes chances de dormir a primeira noite no carro. Era o que ia acontecer conosco.

Por sorte, como realmente não conseguimos entrar, tentamos esquadrinhar os restaurantes nas redondezas e, por obra da sorte, nos deparamos com os dois casais de amigos, que tinham a chave para entrar no hotel, a esta altura já comendo a sobremesa em um estabelecimento qualquer. Entramos e dormimos. Outro golpe da sorte foi o dono ter acordado com o barulho que fizemos ao chegar e me dado a chave de meu quarto. Caso contrário, dormiriamos na sala ou na cozinha. Não preciso dizer que desde o começo, nutri uma antipatia genuína pelo nosso estalajadeiro francês, em que pese sua maravilhosa pousada.

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O local era espetacular, contando com um visual provençal arrebatador e muito característico. Hospedaria tipo bed and breakfast. Bela proposta. O casal dono do estabelecimento ate tentou ser simpático no primeiro dia. Tomamos um cafe da manha de boas vindas com frutas vermelhas, pães, queijos, iogurtes e sucos e o senhor conversou conosco, contando histórias, se debruçando sobre mapas e dando inúmeras dicas e sugestões de passeios.

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Mas, a partir do segundo dia, tudo mudou radicalmente, pois passamos a cometer o delito hediondo de chegar tarde da noite ao local, contrariando a lógica de vida da região e desregulando a rotina dos proprietários, a ponto de nos tornarmos hóspedes indesejados.

Razão: nosso grupo acordava tarde e voltava tarde. Erro capital para explorar essa região! Admito e faço até um mea culpa. Ou melhor, nossa culpa! Dica: Acorde cedo e durma cedo. Se você é notívago ou vampiro, não venha pra cá! A vida na provence acaba sempre por volta de 21 horas. Não mais que isso. Insisto, as pessoas acordam com o galo, almoçam com as galinhas e jantam com sei lá quem, mas muito cedo! Todos os restaurantes da região fecham logo e geralmente as últimas reservas são aceitas para as 20:30. Se você chegar atrasado, pode estar certo que não te atenderão sem fazer qualquer cerimônia. E estamos conversados.

Bem, se a regra estava clara, nós, brasileiros desordeiros, insistíamos em descumprí-la, não deliberada, mas sempre inevitavelmente, gerando uma autêntica dialética entre nós e o lugar, como se fossemos a tese e a provence a antítese, ou vice-versa. Quando estávamos começando a nos acostumar já era hora de partir.

Tenho duas outras dicas fundamentais para quem visita a provence, antes de iniciar a parte de descrição, impressões, atracões e dicas das belas cidades visitadas.

A primeira é que todas as vilas, geralmente na parte da manhã, até mais ou menos o horário de almoço, oferecem ao público as famosas feiras livres, ou ‘grand marchés’, como eles chamam, que contam até com um calendário regional semanal, nas quais se come do bom e do melhor e se compram produtos maravilhosos, geralmente culinários. É sempre um grande programa. Talvez o mais interessante no geral!

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Garimpe e se dedique a esses eventos, sem medo de errar, pois um dos maiores prazeres de estar aqui é comer bem, além de fotografar. Perceba o sabor diferenciado das cerejas, framboesas e demais frutas vermelhas, se esbalde nas enormes variedades de queijos finos e ervas, além de distintos produtos de patisserie, pães e vários outros ítens para degustação!

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E, de preferência, faça uma dieta séria nos dois meses anteriores à viagem, pois aqui fatalmente você vai engordar e voltar pro Brasil com as roupas mais apertadas. Faz parte da experiência.

Por fim, a última dica geral. Sugestão: onde quer que você fique, saia cedo ao ar livre! Veja as diferentes tonalidades de cores das manhãs, acompanhe a variação dos coloridos contrastes entre os raios de sol e a sublime vegetação.

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Caminhe pelas videiras, oliveiras e pelos infindáveis campos, principalmente os de lavanda. Alugue uma bicicleta, qualquer lugar tem, muito fácil, e passeie sem rumo e sem destino. Encontre os seus próprios ângulos e redescubra o canto dos pássaros, o soprar do vento e por vezes o próprio barulho do silêncio. Você vai se renovar enquanto ser humano!

 

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Continua no próximo post…

Do Rio pro Mundo

8 pensamentos sobre “Dicas de viagem para a Provence e Côte d’ Azur: Uma fábula – Parte1

Sonia FortesPublicado em  1:22 am - maio 16, 2013

Felipe, com as fotos ficou ainda mais sensacional. Amei. Sonia

Boia PaulistaPublicado em  10:09 am - maio 20, 2013

Olá. Tudo bem? 🙂

Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem. Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

Até mais,
Natalie – Boia

CandicePublicado em  7:32 pm - maio 20, 2013

Felipe querido,
fico muito feliz que agora tenho um amigo nesse mundo de blogueiros! O “”Do Rio pro Mundo” é muito bem feito e você tem a arte de inspirar nós leitores com sua escrita! Puxa, parabéns e seguimos viagem não é mesmo?!
Da amiga
Candice Bittencourt ( A Vida é uma viagem)

Ricardo VaronPublicado em  1:10 pm - jul 11, 2013

Vc e sua esposa são ótimos aproveitadores dessa vida. Com certeza, conseguem tirar o melhor. A viagem fica espetacular com esse enfoque pitoresco.
Suas dicas são muito interessantes, além do que, vc consegue fazer com que as pessoas viagem junto com o casal.
abcs

    Do Rio pro MundoPublicado em  3:22 pm - jul 16, 2013

    Obrigado por suas palavras Varon, fico feliz com o seu relato, pois este realmente é um objetivo que busco alcançar escrevendo dessa forma, tentando tornar a leitura o mais ‘inclusiva’ possível, cativando o leitor para que ele se motive a ‘viajar’ junto com a crônica e despertar assim o seu interesse pelo lugar, tirando, evidentemente, suas próprias conclusões.

    Grande Abraço, Felipe.

Helena Fernandes de CarvalhoPublicado em  10:01 pm - ago 7, 2013

Felipe querido,
Estou absolutamente encantada. Não consigo parar de ler. E que fotos, Karine!
Parabéns!
Beijo
Helena

    Do Rio pro MundoPublicado em  10:23 pm - ago 7, 2013

    Obrigado por suas carinhosas palavras Helena!
    Ficamos muito felizes com os seus elogios. As fotos da Karine, realmente, fazem uma bela diferença neste trabalho.
    Espero que você leia os outros posts também e siga gostando dessas crônicas.

    Um beijo, Felipe

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