A nossa viagem pelo interior da Áustria e Baviera começou pela capital do Tirol, bem à sombra dos Alpes. Chegamos no aeroporto Franz Joseph Strauss em Munique e retiramos o carro para girar pelos 6 dias seguintes. Ato contínuo, pegamos a estrada e rumamos pelas belíssimas autobahns da região, já com o objetivo de cruzar a fronteira em direção ao nosso primeiro destino. Innsbruck, fundada em 1187 e que funcionou na idade média como um importante entreposto mercantil bem no meio de uma rota comercial que cortava a Europa. (Os Romanos também já usavam o local como ponto de passagem de seus exércitos). Isso trouxe riqueza ao lugar, mas também facilitou sempre as invasões dos inimigos que, vez por outra, queriam conquistar aquele ponto tão estratégico. Cidade central da região mais turística da Áustria, com sua privilegiada geografia formada por montanhas propícias à prática dos esportes de neve e gelo, já sediou duas Olimpíadas de Inverno em 1964 e 1976. Abaixo, foto do símbolo máximo de Innsbruck, o famoso telhado de ouro:

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Quando planejávamos o Roteiro, quase deixei a cidade de fora, talvez por acreditar desavisadamente que, sendo um local mais conhecido e lembrado pela neve e pelo esqui, uma autêntica Meca dos esportes de inverno, não teria tantos atrativos assim no outono, época da viagem. Erro de avaliação capital. Se tivesse insistido no equívoco, teria perdido a chance de conhecer um lugar único. Innsbruck é uma cidade belíssima em qualquer época do ano, ensolarada e colorida, repleta de gente jovem e bonita, por ser uma cidade universitária, misturando ainda muitas paisagens naturais deslumbrantes com doses consideráveis de arquitetura, história e tradição, apesar de ser também bastante moderna e vanguardista. Um mosaico alpino a ser celebrado pelos visitantes. Junto com Hall, são as duas cidades a serem exploradas nessa região.

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2 dias e 2 noites são suficientes. Vale ficar no centro histórico, onde estão localizadas as principais atrações. Desde Munique são pouco mais de 150 km, percorridos de carro em cerca de 1 hora e 40 minutos. Ficamos no hotel Maximilian, muito bem localizado no centro, perto das principais atrações, com ótimas instalações e a conveniência de vaga para estacionamento do veículo em uma garagem a menos de 100 metros do estabelecimento pelo custo fixo de 13 euros por dia. Chegamos por volta de meio dia, largamos as coisas na recepção do hotel e fomos direto explorar o vilarejo.

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Nota: Circular de carro pelo país exige, sob pena de pesada multa, que o condutor compre um selo de circulação livre, chamado vignette, à venda em qualquer posto de gasolina ou loja de conveniência à beira das rodovias. Compre, cole no pára-brisas e viaje tranquilo. Esse adesivo é o seu salvo conduto, atestando que você pagou as taxas rodoviárias e pedágios, tudo calculado antecipadamente. A tarifa é determinada com base no número de dias utilizados. O de 10 dias sai por algo em torno de 15 a 20 euros.

O cenário montanhoso contribui decisivamente para tão sublime beleza nos arredores, encantando até o mais cético dos visitantes. É o grande diferencial da cidade, que também ostenta um centro histórico pitoresco e antigo, cortado pelo rio Inn, afluente do Danúbio. Centro este repleto de construções típicas, destacando-se dentre elas o famoso edifício com o telhado de ouro (Goldenes Dachl), do qual falarei melhor adiante. Outro ponto marcante da cidade, são as filas de pequenos edifícios coloridos que se situam na avenida que margeia o rio e dão uma tonalidade toda especial em contraste com o gris das montanhas, o azul do céu e o branco das nuvens e (quando época) da neve. Foto abaixo:

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Por força de sua situação geográfica privilegiada, um dos maiores trunfos de Innsbruck é o rápido acesso que se tem desde o centro da cidade ao topo da montanha, em meros 15 minutos. Lá de cima, em um dia com céu limpo, a pessoa encontrará vistas espetaculares. O passeio ao alto do morro é a peça chave de qualquer visita ou estadia à cidade, e começa pelo acesso ao teleférico funicular situado próximo ao Centro de Convenções, quase à margem do rio. Foi a primeira coisa que fizemos, já que estava sol quando chegamos. Chama-se Nordkettenbahnen. Em nenhum outro lugar do mundo, a linha que divide o acesso entre o centro de uma cidade de médio porte e o topo de uma cadeia montanhosa é tão sutil, e tão rapidamente cruzada. Bem no canto direito da foto abaixo pode-se ver um edifício de cor alaranjada, ao final da fachada desse palácio, que é a estação de onde parte a subida:

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Através de modernos teleféricos, que percorrem um total de 4 estações, com livre desembarque e reingresso em qualquer uma delas, é possível chegar a cerca de 2.256 metros de altura. Na verdade, as duas primeiras estações, de base e de apoio, são trilhadas por um pequeno trem elétrico. A estação inicial já na montanha (primeira foto abaixo) permite a visita a um zoológico alpino e está a 750 metros de altura. Na segunda, Hungerburg, sobe-se um pouco mais até 860 metros. E a coisa começa a ficar mesmo bela e interessante a partir daí. Troca-se o meio de transporte passando para o teleférico propriamente dito nessa estação. (foto abaixo). A terceira parada é a de Seegrube, já a 1905 metros de altura e de onde se obtém um visual indescritível de todo o vale de Innsbruck, das construções, da vegetação, do rio e das montanhas adjacentes. Compre uma cerveja de trigo (weissbier) e sente-se por alguns minutos no mirante panorâmico para admirar o visual de cair o queixo. Vale à pena demais.

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Depois, subimos ainda mais até a última estação, a Hafelekar, situada no cume extremo da montanha, a 2256 metros de altura com vista igualmente sublime e viabilizando um giro visual de 360 graus. Nesse ponto mais alto fazia muito frio quando chegamos e o tempo começou a ameaçar uma virada, mas, mesmo assim, caminhamos ao redor e ‘escalamos’ uma pequena trilha lateral, tirando as fotos abaixo. De um lado, o lindo vale de Innsbruck. Do lado oposto à cidade, enxerga-se toda a cadeia montanhosa que corta a região do tirol. Foto do lado inverso:

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Quando for comprar o tíquete, certifique-se de adquirir o bilhete de ida e volta que permite a viagem até a estação mais alta, a Hafelekar, ao custo de 29,50 Euros. Caro mas vale cada centavo do seu rico dinheirinho. E, se estiver com tempo, disposição e gostar de trekking, você pode tentar dispensar o teleférico e subir a montanha a pé. Trilhas de subida com dificuldade média existem e muitas (não tantas assim) pessoas fazem isso, caminhando ou de bicicleta. Emoção e aventura não faltarão aos que se dispuserem a fugir do óbvio.

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Após chegarmos deste passeio, tivemos certeza de que havíamos visitado a atração mais imperdível da cidade. Mas, como ainda tínhamos um dia inteiro, não nos faltaram atrações e motivos para seguir adorando Innsbruck. De cara, passamos por um grupo usando vestes típicas, que tocava instrumentos em plena praça e entretia os turistas e os locais, executando belas canções clássicas e folcróricas. Paramos para assistir um pouco e descobrimos ao longo da visita que esse ritual é muito comum lá e frequentemente o visitante encontra pequenos grupos performáticos exibindo seus dotes musicais e artísticos, conferindo um ar sempre alegre e descontraído àquelas ruazinhas estreitas e históricas.

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Retomamos a caminhada pelas portas da cidade antiga, na Maria-Theresien Strasse, um boulevard exclusivo para pedestres aberto entre edifícios renascentistas, e que se converteu na rua principal de encontro e celebração das pessoas, que “desfilam”  e confraternizam sem pressa. A rua tem uma linda visão em perspectiva da montanha e é um dos cenários mais fotografados de Innsbruck. É repleta de bares, restaurantes e comércio. Caminhando até o fim desta via, ela muda de nome e passa a se chamar Herzog-Friedrich- Strasse, aonde chegamos novamente até o telhado de ouro e o famoso edifício ao seu lado, com a fachada toda decorada em estilo Rococó, a Helblinghaus. Todos esses belos edifícios, que ficam na mesma e concorrida esquina, são o ponto chave de confluência do centro histórico e foram construídos durante o reinado do Imperador Maximiliano I, de Habsburgo.

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Defronte a Helbinghaus, vale a subida até a Stadtturn, a torre da cidade, erguida no século XIV. Com 56 metros de altura, acessíveis apenas por escadas, permite lindas vistas, inclusive do edifício com o telhado de ouro, que teve o seu telhado assim ornamentado com 2657 “telhas” douradas. Da sacada deste imponente edifício, o imperador controlava todo o movimento na área central da sede de seu governo. Primeira foto abaixo, lá de cima:

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No dia seguinte, novas surpresas estavam reservadas. (Nota: Para quem for afixionado pelo tema, informo que a Swarowski possui um museu a 20 minutos da cidade, com esculturas e peças decoradas com seus cristais. Colhemos informações conflitantes sobre a atração e, por isso, optamos por não conhecê-la). Assim, iniciamos cedo o segundo dia, com a visita ao belo Domo de Saint Jakob, a catedral da cidade. Totalmente barroca Tem um interior bastante  suntuoso, rico e ornamentado, o que demonstra toda a riqueza e o poder da Igreja Católica desde os períodos mais antigos da história. Aliás, na Europa, toda cidade costuma ter uma belíssima catedral-palácio e, óbvio, com Innsbruck não seria diferente. Abaixo, fotos da fachada e do interior:

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Saindo da catedral, rumamos para dois museus, que podem ser visitados em conjunto. O primeiro, menos interessante, foi o museu de arte folk tirolesa, que tem objetos e roupas típicas expostas, além de reconstituições de ambientes de casas tirolesas antigas que revela os costumes e o estilo de vida desse povo. Esses ambientes são a parte mais atraente da visita. As fotos abaixo mostram exemplos de cômodos antigo de uma casa tirolesa típica, sempre com a prevalência de elementos de madeira, com o claro objetivo de servir como um material isolante para o frio intenso:

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Em seguida, outro ponto alto de nossa passagem pela cidade, o impressionante Hofkirche, uma igreja da corte, construída com a finalidade precípua de abrigar o mausoléu de Maximiliano, que adorava Innsbruck. O próprio imperador projetou o seu monumento funerário, bem no centro da nave da igreja. O túmulo suntuoso é considerado uma obra prima renascentista. E é mesmo. Os relevos nos painéis laterais contam episódios da vida do monarca. Contudo, a parte mais impressionante é quando chegamos caminhando ao redor da tumba e somos então ‘recepcionados’ por 28 anfitriões, que integram um conjunto de quase 3 dezenas de enormes estátuas de bronze maciço e verticais (com cerca de 2 metros de altura cada) onde foram homenageadas figuras históricas e antepassados ilustres da linhagem real.

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Em dado instante, ali parado, dando asas à minha imaginação e influenciado pelo ambiente quase surreal e cartesiano da cena, comecei a me sentir uma peça humana em um gigantesco tabuleiro de xadrez, cercado por reis, rainhas, bispos e torres. Faltavam apenas os cavalos. Logo logo, contudo, saí do transe e recobrei a consciência. Já era hora de voltar aos ambientes externos. Não deixe de visitar o Hofkirche, especialmente essa sala onde fica o túmulo do imperador com as estátuas e o chão em mármore bicolor quadriculado. Fotos abaixo:

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Após mais uma caminhada pelo centro, pegamos um táxi (10 euros) e fomos direto ao outro lado do vale, no sentido sul, visitar um outro ponto turístico bastante concorrido e do qual os cidadãos muito se orgulham. O estádio de saltos de Esqui de Bergisel, palco de fortes moções e disputas acirradas nas duas olimpíadas de inverno sediadas em 1964 e 1976. Em 2002, foi inaugurado o novo e belíssimo trampolim, totalmente remodelado e projetado pela famosa arquiteta Zaha Hadid. O complexo conta ainda com um restaurante no último andar com terraço panorâmico com vistas estonteantes das montanhas ao redor. Imperdível. Quando de nossa visita, demos sorte de ver e fotografar atletas praticando o salto. Somente assistir ao treino já nos prendeu a respiração e pareceu uma atividade de tirar o fôlego. Realmente, é preciso coragem e ousadia para a prática dessa modalidade esportiva. A primeira foto da sequência abaixo, em mais um dos muitos cliques inspiradores da Karine, mostra um atleta em pleno salto com os visuais ao fundo:

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Finalizada a visita ao complexo esportivo, logo abaixo, fomos até o museu Tirol Panorama, um testemunho da história da cidade. Esses museus eram muito comuns na Europa e continham pinturas de 360 graus (que substituíam as fotografias) em salas próprias, retratando as paisagens e/ou alguma cena histórica agregada. O museu da cidade fica a uns 100 metros abaixo da pista de esqui em um edifício recentemente modernizado e contém a pintura monumental, retratando o episódio de resistência tirolesa à invasão das tropas de Napoleão em 1809, na batalha de Bergisel. Considerado o melhor museu com pintura panorama da Europa.

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Descemos  a colina de bergisel e passamos o final da tarde caminhando sem rumo pelo centro histórico, apenas curtindo os visuais e o movimento das pessoas. No dia seguinte, rumaríamos para Salzburg.

Innsbruck valeu demais e me surpreendeu de forma extremamente positiva como destino turístico. Quem sabe volto aqui no inverno para tentar aprender a esquiar e ver a cidade com outra cara, coberta de neve e gelo? 

 

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