Até bem pouco antes de começar a planejar o roteiro pelo interior da Áustria, nunca sequer tinha ouvido falar em Hallstatt. Certo dia, exercendo meu hábito compulsivo de folhear títulos sobre qualquer assunto em uma livraria, me deparei com o guia visual da Folha de São Paulo, edição 2014, estampando na capa uma foto espetacular de um lugar por mim até então ignorado, onde se via um cenário paradisíaco de uma pequena vila composta por, no máximo, duas dezenas de casas, igrejas e pequenos edifícios de arquitetura tipicamente saxônicas, todos quase colados uns nos outros.

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Essas construções, por sua vez, apareciam cercadas por uma vegetação sublime com múltiplas tonalidades de verde e por um lago maravilhoso de águas calmas e translúcidas, a refletir o azul do céu, tudo devidamente escoltado bem de perto por um enorme paredão de montanhas alpinas, eventualmente salpicadas de neve em seus cumes, logo atrás. E, se não bastasse tudo isso, 1 mês depois ainda fui descobrir no decorrer da visita, que por dentro, bem no meio da cidadezinha desce uma cachoeira que traz a água que vem furiosamente da montanha e deságua no lago. Deus certamente estava em um de seus momentos mais inspirados quando criou esse impressionante pedaço de natureza, ao redor do qual o homem tratou de ocupar quase que pedindo licença. A foto que vi no guia e que me fascinou era mais ou menos como essa, que tirei in loco, com a diferença da ausência de neve nos cumes:

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Voltando ao momento da livraria, digo que fiquei imediatamente enfeitiçado pelo retrato e tive que me aprofundar na pesquisa. E, para minha surpresa e satisfação, descobri que se tratava de uma pequena e pitoresca vila a cerca de 1 hora de Salzburg, no distrito dos lagos e montanhas de Salzkammergutt (patrimônio da humanidade), um dos mais belos trechos da paisagem rural austríaca, cheia de riquezas garantidas pela milenar atividade das minas de extração de sal, que retiram esse valioso e imprescindível mineral das veias e das entranhas das montanhas. Obviamente, desde aquele momento, tive certeza que o destino estaria incluído no trajeto, ainda que tivesse que suprimir a visita a algum outro local ou acrescentar mais um dia na viagem.

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Assim, após os 3 dias em Salzburg e antes do último trecho do giro na direção de Munique, passamos um dia e uma noite nesse pequeno paraíso. Vou tentar explicar, mas, desde logo esclareço que, por mais que tente escrever todas as linhas possíveis, mesmo conseguindo por sorte usar todas as palavras exatas e conquanto possa ainda anexar as melhores fotografias, não chegarei nem perto de exprimir a sensação de estar no o local ao vivo e a cores. Certos lugares são assim. E Hallstatt é um deles. O tempo também muda a cada instante. Em um único dia, pode fazer sol, ficar nublado, chover e então abrir novamente um sol. Só indo lá mesmo pra compreender o que digo. Se eu fosse você, embarcava nessa.

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Hallstatt tem o seu nome assim definido por estar as margens do lago Hallstätter (Halstatter See). O que eles chamam de cidade, na verdade corresponde a um pequeno filete de terra espremido entre o lago e o maciço de Dachstein, com sua íngreme encosta, parecendo um  cenário quase irreal. As construções, para quem vê de longe, são notadas como que se estivessem coladas umas nas outras e o espaço entre as mesmas é realmente pequeno, até para caminhar. Isso acaba sendo um charme adicional do vilarejo. Foto abaixo com a visão ao fundo de uma das 2 belas igrejas da cidade e sua cúpula de ponta, a pfarrkirche. A cidade tem uma igreja católica e outra protestante:

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A cidade é de fato bem pequenina sendo possível cruzar toda sua extensão a pé em cerca de 15 a 20 minutos. Embora seja viável o percurso de trem, o ideal (bota ideal nisso) é alugar um carro em Salzburg (se vc. já não estiver fazendo o roteiro de carro) e chegar até ela conduzindo pelas maravilhosas estradas da província, com belos lagos e muita área verde. No local, é bem simples de estacionar, pois há 3 estacionamentos bem defronte as duas entradas. Note que o tráfego de veículos dentro do vilarejo é proibido durante o dia, salvo para moradores, automóveis oficiais e vans de transfer dos poucos hotéis, que levam e trazem os turistas que deixam os carros parqueados do lado de fora da cidade. O ideal é cruzar o túnel na estrada e parar o carro em um dos 2 estacionamentos logo à direita.

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Para quem for se hospedar, utilize o estacionamento P1, ao preço de 9 euros a diária. Hallstatt comporta bem um day-tour bate e volta desde Salzburg. Porém, com um pouco mais de calma e tempo, o visitante descobre várias coisas interessantes para ver e fazer não somente no pequeno perímetro da vila como também nos arredores. Por isso, e também para poder curtir o clima noturno no lugar, onde o vilarejo fica quase deserto de turistas e mesmo de moradores, recomendo ao menos um pernoite. Escolhemos pernoitar e, já que dormiríamos, fizemos algo extravagante, um hotel escancarado para o lago, com uma varanda dispondo de vista panorâmica. Seehotel Grüner Baum. Com sua localização espetacular e diferenciada, fica exatamente entre o lago e a praça central, com quartos limpos mas longe de extremamente confortáveis, e ainda sem ar condicionado (fotos da paisagem da varanda):

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Do outro lado do hotel fica a pracinha central de Hallsttatt, a Marktplatz. Bonitinha, cheia de turistas, crianças e pessoas de idade sentadas, brincando e passeando. Tem também uma pequena fonte com chafariz no meio e construções do século XVIII, sendo um refúgio ideal para dar uma relaxada e comer algo ou degustar uma cerveja, caminhando ainda pelas ruazinhas adjacentes. Há um pequeno comércio na cidade que vende comida, roupas, souvenires e demais produtos de artesanato típicos.

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A 2 minutos de caminhada da pracinha, o visitante pode alugar barcos elétricos facílimos de conduzir, ao preço de 15 euros por hora, e navegar pelo belíssimo lago Hallstäter. Recomendo demais o passeio, que é uma das coisas mais imperdíveis a se fazer em Hallstatt. Não confunda com o barco motorizado maior, que serve para fazer a travessia para a outra margem no lado oposto, onde se localiza a estação de trem. Assegure-se de alugar um barquinho elétrico, com capacidade para, no máximo, 4 pessoas. Abaixo, fotos da pequena doca onde se aluga o barco e também das cenas do passeio ao redor, com vistas da cidade e dos arredores (note-se as mudanças no tempo em um pequeno intervalo de 1 hora):

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Do lago, quando se está fazendo o passeio de barco, é possível avistar, no topo da montanha, o movimento de vai e vem de um pequeno teleférico furnicular amarelo que sobe e desce levando os visitantes para o tour na mina de sal, sobre o qual falarei ao final deste post. A foto é impressionante:

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Encerrado o passeio de barco, fomos caminhar para a parte mais alta da cidade. Ali, destaco a visita à famosa capela de ossos, adjacente ao pequeno cemitério situado no topo da colina acessível por uma escadaria. Essa capela reúne milhares de ossos e mais de 600 crânios humanos pintados. Segundo nos foi dito, os ossos e caveiras foram se acumulando na capela em virtude do espaço reduzido do cemitério. O morador da cidade tinha o direito de ficar enterrado apenas por 12 anos. Após, seus restos mortais eram retirados para o sepultamento dos cadáveres mais recentes e, se sua família dispusesse de dinheiro, o seu crânio podia ser pintado e alocado na capela. Essa prática durou até 1960, quando passou a ser autorizada a cremação na cidade.

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A cidade ainda é muito frequentada por turistas que gostam de praticar trekking, e também por escaladores, pois, de sua parte mais alta, partem diversas trilhas para as montanhas da região. A foto abaixo mostra isso. Na parte alta, acima das últimas casas avistadas, há uma mata densa e fechada na montanha, e de lá existem pontos de partidas para inúmeras trilhas e caminhadas com distintos graus de dificuldade. Perfeito para quem curte esportes de aventura:

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Bem, na noite em que estivemos hospedados na cidade demos um certo azar e choveu quase o tempo todo. Desse modo, jantamos no próprio restaurante do hotel. Acordamos cedo na manhã seguinte, que estava bastante ensolarada, passeamos mais, tiramos fotos e fizemos o check out rumo ao estacionamento para seguir viagem à Munique. Fazia sol, depois nublou, fechou o tempo e até choveu bastante, tudo para depois novamente limpar e abrir de novo…

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Antes de pegar a estrada, contudo, aproveitando que a entrada fica bem na saída da cidade, quase defronte ao estacionamento onde paramos o veículo, fomos fazer o tour da mina de sal mais antiga do mundo. A visita custa 24 euros incluindo o furnicular de subida e permite acesso também a um mirante maravilhoso antes de se chegar a mina, que dispõe de uma das vistas mais espetaculares da região. Infelizmente, deixamos para ir ao mirante após a visita na mina e nos demos muito mal, pois chovia demais e tivemos que rumar direto pro carro. Abaixo, além das fotos tiradas pela Karine, do furnicular e do restaurante que há em cima da montanha, anexo também uma foto do visual do mirante, RETIRADA DA INTERNET, para que se tenha uma noção do espetáculo:

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Bem, sobre o passeio da mina de sal, trata-se de uma visita guida ao interior da montanha, e feita em grupo. O passeio dura mais ou menos 1 h e 15 minutos. Há vários trechos de caminhada e algumas descidas em escorregadeiras de madeira, próprias para que o grupo de visitantes e o guia acedam aos diferentes níveis de escavação no interior da mina contida nas entranhas dessas fantásticas formações geológicas de milhões de anos de idade.

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Faz muito frio e é preciso colocar roupas próprias. O tour conta a história da mina, informações sobre o processo de extração do sal da rocha, alguns vídeos, observação de grandes pepitas de sal, coloridas e iluminadas, e um percurso dinâmico e interativo por uma mina em plena atividade, que se destaca como a mais antiga do mundo. Ao final, todos saem após uma carona de 3 minutos em um trem rápido que corta um extenso túnel e chega ao exterior novamente. E todos então recebem uma amostra do produto, em uma pequena embalagem souvenir. Aviso: Quem tiver problema de claustrofobia e pânico deve evitar veementemente esse passeio.

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Bem, após a mina de sal, seguimos viagem de carro até Munique, deixando pra trás lembranças e paisagens deslumbrantes e inesquecíveis de um lugar que, somente porque tínhamos visto, acreditávamos ser real…

9 Thoughts on “Hallstatt: O pequeno paraíso Austríaco.

  1. Olá. Tudo bem? 🙂

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

  2. Parabéns pelo artigo, que descobri lendo o Ricardo Freire. Ainda não conheço Hallstatt, mas fiquei com vontade… 🙂
    Grande abraço desde Portugal e continuação de bom trabalho.

    • Do Rio pro Mundo on 5 de abril de 2015 at 12:52 said:

      Muito obrigado por seu comentário elogioso Filipe. Vá mesmo um dia à Hallstatt. É impressionante de tão bonito!

      Um abraço, Felipe.

  3. Que lugar INCRÍVEL! Adoro descobrir esses recantos, são como tesouros escondidos. As fotos (lindas!) não deixam dúvidas, tenho de conhecer! Parabéns pelo blog, muito bom!

    • Do Rio pro Mundo on 5 de abril de 2015 at 19:27 said:

      Obrigado Christina!

      Elogios como o seu me dão a certeza de que vale a pena prosseguir com esse trabalho…

      Um abraço, Felipe

  4. Fernanda Cukier on 21 de agosto de 2015 at 1:11 said:

    Oi Felipe, sou eu Fernanda Cukier!

    Parabéns pelos belos textos!
    Estarei fazendo esse roteiro em Setembro e suas dicas estão me ajudando e inspirando bastante. Aumentei os dias na Áustria por conta deles. Fantástico!

    Um abraço pra vc.

    • Do Rio pro Mundo on 24 de agosto de 2015 at 12:33 said:

      Valeu Fernanda! Obrigado pelos elogios. Fico muito feliz e lisonjeado. Que bom q esses posts estão te ajudando.
      Bjs e apareça.

  5. Majo Coelho on 25 de fevereiro de 2017 at 3:33 said:

    Olá
    EXclente Post e com fotos maravilhosas.
    Pretendo fazer um bate e volta de Salzburgo, só que de trem são 5 horas ida e volta, Você acha que é muito corrido.?

    Majo

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