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Stavanger: Kjerag hike e suas paisagens de tirar o fôlego.

Após deixarmos Bergen para trás, seguimos rumando para o sul do país. Preterimos a Capital Oslo (que apesar de desejada, ficou para uma outra oportunidade) e priorizamos a manutenção de um viés de exploração das famosas belezas naturais, pelas quais a Noruega é mais conhecida e afamada. As capitais Nórdicas da viagem seriam apenas Estocolmo e Copenhagen. Queríamos ‘usar’ a terra dos Vikings para ver mais paisagens extraordinárias de fjordes e para percorrer algumas das mais famosas trilhas de montanhas norueguesas, reconhecidas mundialmente.

Dentro dessa proposta, fomos para Stavanger, uma cidade menor que Bergen, mas com um potencial turístico e de visitantes bastante considerável, em virtude de dois motivos: Primeiro os turistas que chegam em busca das maravilhosas paisagens do Lysenfjord e das super trilhas das redondezas, cuja exploração tem na cidade a sua melhor base e ponto de apoio. Segundo motivo, pelos visitantes que são trabalhadores da fortíssima indústria do petróleo, da qual Stavanger é a sede nacional, sendo aqueles advindos principalmente dos Estados Unidos e de países do Oriente Médio.  Foto abaixo do Centrinho da Cidade ao cair da noite:

A Noruega era um dos países mais pobres da Europa até meados da década de 60, quando foram descobertas enormes reservas de petróleo na sua costa dos Mares do Norte. Com isso, o país deu um salto de qualidade e se tornou um ‘case’ de sucesso, com um dos maiores PIBs per capita no mundo e com uma eficiente política estatal de distribuição das riquezas naturais por toda a afortunada população de pouco mais de cinco milhões de habitantes. É o que melhor aconteceu no mundo como exemplo prático do denominado “wellfare state”.

Pois bem, ficamos 02 dias e 03 noites em Stavanger hospedados no hotel Scandic Park Stavanger, o que nos permitiu fazer as trilhas de Kjerag e a de Pulpit Rock, duas das mais famosas do país. Deu pra conhecer pouca coisa da cidade em si, apenas o seu charmoso centrinho no ultimo dia, quando jantamos em um restaurante defronte a orla do pequeno Porto. Por qual razão fomos parar lá ao invés de irmos pra Oslo ou para o Norte? Pois quando estava fazendo as pesquisas de internet para decidir o roteiro da viagem, essas duas fotos abaixo me chamaram à atenção. Então encasquetei com isso e coloquei na cabeça que iria porque iria nesses dois lugares. Foi basicamente por isso que esticamos até Stavanger. Fotos de kjerag bolten (contada neste post) e pulpit rock (tema do próximo relato)

Pois bem, havia chegado o momento de transformar o planejamento em ação. O desafio inicial seria a trilha de Kjerag, no primeiro dia por lá. Acordamos às 4 horas da manhã, pois às 4:50 am o nosso guia Johaness, contratado junto à excelente empresa Outdoor Life Norway, da qual ele é um dos donos, empresa que inclusive muito recomendo, passou na porta do Hotel com a sua Van. Iríamos em um grupo de 06 pessoas, sem contar o guia, fazer a famosa trilha de Kjerag, de média para alta dificuldade. As duas fotos abaixo mostram o mapa do trajeto pelo fjord até o ponto de subida e as inclinações e distâncias na escalada:

A trilha para subir o monte kjerag é bastante desafiadora. Ida e volta são 12 km de caminhada com trechos alternados de subida e descida, alcançando-se 1020 metros de altura. Junto com a pulpit rock de prejkestolen (tema de outro post) e a trolltunga, formam a denominada “tríplice coroa” do hiking na Noruega. O trajeto é belíssimo, apesar de o dia estar um pouco nublado. Saímos de Stavanger, onde estávamos baseados, tendo contratado anteriormente um tour de grupo pequeno pela excelente agência Outdoor Life Norway, já mencionada. Após nos buscarem às 5 da manhã e então com o grupo completo no carro, apanhamos um ferry que percorreu toda a extensão do Lysenfjorden num trajeto que leva cerca de 1 hora passando por belos visuais, um pouco comprometidos naquele momento pela presença de uma certa neblina no começo da manhã.

Lá chegando, desembarcamos o carro de dentro do ferry e depois ainda foi preciso percorrer uma estradinha sinuosa por mais uns 20/25 minutos até a chegada ao acampamento/ponto de apoio base para se iniciar a trilha/escalada de Kjerag. Aqui, duas importantes ressalvas. Fotos abaixo do estacionamento base com um centrinho de apoio:

A primeira é que para fazer essa trilha, é de suma importância que a pessoa esteja razoavelmente preparada e gozando de boa condição física. A trilha não é das mais simples e castiga todos aqueles que acharem que vão tirar de letra. É preciso ter humildade e respeitar a natureza e os próprios limites. Fundamental o uso de roupas corta vento e sapatos adequados, de preferência botas rijas e impermeáveis para enfrentar os percalços do trajeto. E, se possível, o par de bastões de caminhada feitos de alumínio, fundamentais principalmente para poupar os joelhos nos trechos de descida, já que transferem parte do peso do corpo para os braços e ombros. A trilha, repito, exige um condicionamento físico minimamente razoável e tem trechos de muita exigência, passando-se por lama, barro, gelo, terrenos um pouco pantanosos e alguns trechos de subida técnica em pedra, embora não muito longos. As fotos abaixo não estão em ordem cronológica do relato e foram todas tiradas por nós no dia em que lá estivemos:

A segunda dica é contratar um passeio guiado. A dificuldade física e técnica do percurso já é algo suficiente o bastante para se preocupar. Não vale à pena ter que ainda por cima dividir seus esforços e concentração com o planejamento da viagem ( quase 2 hs desde Stavanger) e com o estudo do trajeto e das condições climáticas e de percurso. O guia, portanto, embora não imprescindível, acaba facilitando bastante o bom desenrolar da jornada.

Começamos o percurso instigados e motivados. De cara, nos primeiros 10 minutos, enfrentamos uma baixa. Uma menina japonesa que caminhava conosco pisou em falso e escorregou em uma pedra vindo a torcer o joelho. Fim de papo para ela. Teve que ficar na base aplicando gelo, descansando e aguardando por mais de 6 horas até o retorno do restante do grupo. Para se chegar ao ponto final do percurso, caminhamos por cerca de 3 horas e 30 minutos, contando as paradas. São trechos com subidas e descidas alternadas, passando por 3 morros e por pontos de muita beleza natural. Há também vários riachos e pequenas cachoeiras com água pura da montanha, deliciosa de se beber naquele momento de sede e de exaustão. Foto do momento em que a nossa companheira de grupo se machuca:

Outra questão interessante é que o tempo muda a cada instante. Podem acontecer as quatro estações do ano em poucas horas ou ao longo do mesmo dia. Embora não tenhamos tido sol forte, tivemos momentos de céu claro e limpo, depois fechado, nublado, neblina alta e baixa, cerração e vento, tudo indo e vindo alternadamente.

Após 3 horas de difícil caminhada e algumas paradinhas para descanso e fotos, chegamos no objetivo, sendo que o trecho final ainda apresentava neblina e resquícios de neve com gelo. No topo do kjerag, fomos recompensados com uma vista espetacular das montanhas e fjordes ao redor (sim, a neblina desapareceu). E bem lá no final, à beira do precipício, avistamos a cereja do bolo, o troféu da caminhada. A famosa kjerag bolten, uma pedra em formato de esfera com um diâmetro relativamente estreito e que fica presa entre 2 paredões, se sustentando acima de um vão em queda livre com cerca de 1000 metros de altura.

Vejam como o tempo mudou rapidamente no mesmo ponto em que estivemos num intervalo de 30 minutos:

As pessoas costumam ficar em pé na pedra e tirar uma famosa foto, mas no nosso dia, fomos instruídos e aconselhados a não subir pois além da pedra estar levemente molhada, devido à umidade do clima e de certa neblina, o vento estava muito forte no local e soprando em múltiplas direções, o que representava certo risco. Melhor assim porquê eu não precisei ficar na dúvida. 😁😁. Não valeria correr o risco de vida por uma foto, pois o menor escorregão em cima da kjerag bolten importa em queda livre e fim da linha. Ficamos no topo uns 30 minutos curtindo e contemplando extasiados os visuais arrebatadores que se tem de lá de cima. Depois o guia serviu um chá bem quente de ameixas vermelhas e a neblina retornou com força nos dizendo que era hora de partir.

A volta até o ponto base da escalada exigiu novas 3 horas de caminhada e na hora e meia final, o corpo já começava a dar sinais de cansaço e exaustão, tendo então sido preciso encontrar energia e concentração extras para concluir a jornada e não nos deixarmos vencer pela fadiga. As descidas da parte final do percurso foram, em minha visão, as mais sacrificantes para o corpo, até porque os joelhos depois de tanto tempo sendo exigidos de modo reiterado e constante, já não respondiam com a mesma eficiência. Além disso, há trechos de escalada técnica em pedra, dificultada por ser descida. Felizmente tudo acabou dando certo e ao final de 6.5 hs de passeio, 12 km de caminhada e mais de 1000 metros de subida, retornamos ao ponto original de nossa partida, cansados e entusiasmados com a experiência vivida. Foto abaixo da comemoração pelo iminente fim do percurso:

Trocamos as roupas, tiramos as botas, bebemos uma bebida quente e relaxamos com a sensação de dever cumprido. Depois sentamos no banco de trás do carro, relaxamos e dormimos no trajeto de 2.5 hs de retorno a Stavanger.

Recomendo muito esse passeio e insisto uma vez mais, apenas com o conselho para que a pessoa busque, para maior conforto e segurança, contratar um tour com guia especializado, como fizemos com a Outdoor Life Norway. E, obviamente, que seja feito no período do ‘verão’ nórdico, entre início de junho e final de agosto

Voltamos pro Hotel, jantamos em um restaurante próximo e depois desmaiamos ao retornar pro quarto. No dia seguinte, o desafio seria a trilha da pulpit rock em prejkestolen…