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Budapeste: O que há de melhor no Leste Europeu. Parte 1

Budapeste foi o lugar escolhido para iniciar a viagem pelo Leste Europeu. E, devo admitir, tinha uma expectativa apenas mediana em relação à cidade, malgrado algumas opiniões recentes de pessoas conhecidas se dizendo arrebatadas pela capital da Hungria. Não sei dizer a razão nem o porquê mas sempre achei que seria para mim aquela menos interessante do circuito obrigatório do trio de ouro Praga-Viena-Budapeste (No nosso caso ainda fomos à Cracóvia). Talvez pelo fato de sempre ter ouvido as pessoas falando muito mais sobre os encantos da República Tcheca e da Áustria. No entanto, mal sabia o quanto estava equivocado pois, para minha surpresa e deslumbramento, entre todas, ela acabou sendo a que mais gostei, ligeiramente a frente de Viena. Um lugar delicioso, mágico e inesquecível! Tentarei explicar com calma…

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Comecemos com um pouco de história. Pois bem, a Hungria é considerada uma ilha Magyar cercada por um oceano Eslavo. De fato, o simpático povo húngaro tem mesmo uma história muito peculiar, a começar pela descendência inédita entre os países europeus, oriunda das tribos bárbaras Magiares, provenientes da Ásia Central, dotadas de um espírito rebelde, feroz e falando um idioma totalmente babilônico, incompreensível e sisudo, a ponto do grande Chico Buarque, em seu livro homônimo, ter afirmado com rara felicidade poética que o húngaro é “segundo as más línguas, a única língua que o diabo respeita.” Os húngaros ou magiares são uma etnia originária dos Montes Urais no Continente Asiático, cujas tribos invadiram a Europa Central no final do Século IX (ano 896 d.c.) e se estabeleceram na Bacia dos Cárpatos fundando um Estado que seria posteriormente conhecido como Hungria. (foto minha: Galeria de arte fechada para reforma até 2017 na Heroes square)

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A língua húngara, embora admita pequenas diferenças etimológicas entre os termos “húngaro” e “magyar”, modernamente, para facilitar a compreensão, emprega os termos como sinônimos, tanto para designar o membro originário da etnia como o cidadão húngaro, indistintamente de sua região habitada, sendo a república atualmente composta por cerca de 13 milhões de cidadãos.

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Budapeste é uma metrópole absolutamente única, capital de uma nação também única. Cheia de peculiaridades, é um exemplo típico de cidade que obteve mais fama do que o próprio país e trata-se de uma das “salas de estar” mais elegantes da Europa. Tudo fruto de seu passado remoto, que apresenta uma história bem conturbada. Fundada por Magiares no século IX, se viu invadida pelos Otomanos no século XVI, e em meados do século XIX, foi unida ao Império Austro-Húngaro, quando Franz Joseph e Sissi foram coroados Reis da Hungria na Igreja de São Matias em Buda. Nessa época, começou um período dourado de modernização e de edificações de construções suntuosas e cheias de luxo, dotadas de traços característicos da arquitetura art-nouveau. Tudo com o objetivo de competir em pé de igualdade com a outra Capital do Império, Viena. Esse fervor, culminou com a inauguração do fantástico Parlamento Húngaro (réplica quase idêntica ao similar Britânico) em 1896, por ocasião da comemoração do milênio de fundação da nação Magyar.

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Com a queda das Monarquias europeias, a cidade experimentou um período de estagnação e leve declínio, sendo severamente bombardeada e quase inteiramente destruída na 2ª guerra mundial. E, se não bastasse esse infortúnio, por ter se aliado, ainda que tardiamente, ao lado perdedor, acabou sendo submetida ao jugo do comunismo por mais 45 anos. Hoje, renovada, toda reconstruída e se modernizando em ritmo frenético, a cidade recebe um fluxo incessante de turistas de todas as partes do mundo, ávidos por conhecer um país de cultura tão rica e peculiar e com uma capital tão monumental.

Talvez por força de sua rica e grandiosa história, o povo age com uma certa nostalgia, adotando uma postura “à moda antiga”, gostando de relembrar e exaltar as glórias do passado, e demonstrando muita educação, formalismo e polidez. Resumindo em poucas palavras, Budapeste é uma cidade muito elegante e com muita personalidade. Autêntica até dizer “chega”. Em minha opinião, superou Praga com folga, embora não goste de fazer esse tipo de comparação, pelas peculiaridades que cada uma possui. E essas características acima ressaltadas geram também, entre visitantes e cronistas, frequentes comparações positivas com a França, a ponto de Budapeste ser chamada de a Paris do Leste.

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Em Budapeste, as pessoas se sentam nos cafés e passam horas conversando, fumando, bebendo um expresso e lendo livros e jornais. Adoram consumir cultura em galerias e museus, assim como gastar tempo nas praças observando o vai e vem da vida. Admiram e muito se vangloriam de sua origem e de sua etnia. Nos restaurantes, percebe-se uma fidalguia por parte dos garçons e atendentes, que nunca se apresentam desleixados aos clientes, mas sempre com uma aparência impecável e distinta, orgulhosos de sua função. Todos os cidadãos se esforçam para se comunicar com os turistas e demonstram atenciosidade e disposição de ajudar, quando solicitados.

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A cidade é muito limpa e organizada, com boulevares amplos e arborizados, repletos de belos e suntuosos edifícios de arquitetura art-nouveau, típica do período Austro-Húngaro. Tem também várias pontes majestosas sobre o trecho mais belo do danúbio, que ligam os dois lados da Capital, estações de trem que mais parecem museus de tão ornamentadas e ricas, ruas alegres e cheias de bares e restaurantes, abertos a qualquer hora do dia. E, por não ter um litoral nem saída para o mar, possui mais de 50 elegantes banhos quentes abastecidos por fontes termais naturais, uma de suas marcas mais características. Estes estabelecimentos, introduzidos quando da ocupação Turca, reúnem piscinas quentes e frias, saunas, refeitórios e variada opções de massagem. Além de sua função original de entreter e refrescar no verão (quando eles diminuem a temperatura da água) e aquecer e abrigar no inverno, servem ainda como ponto de encontro e de socialização do povo húngaro.

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Budapeste conta também com uma vida noturna agitadíssima, principalmente no bairro judeu, onde a juventude se encontra para namorar, beber cerveja, ouvir música eletrônica e dançar nos chamados “ruin bars” (bares em ruínas) , dos quais falarei com detalhes mais adiante. E, em todo canto, vende-se ramos de paprika, camisas vintage de férenc puskas e garrafas de vinho Tokaji, três grandes símbolos do país.

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Pois bem, vamos aos aspectos práticos. Acredito que a melhor época pra ir é entre maio e junho ou entre setembro e início de outubro. Julho e agosto são meses de alta temporada e tudo estará mais cheio, caro e confuso. Em contrapartida, nos meses de inverno, a cidade fica vazia e escura, com dias chuvosos e cinzentos, e além disso faz bastante frio quase sempre com vento, às vezes chegando a nevar. Para chegar na Cidade, fizemos uma rápida conexão em Madrid, vindos do Rio de Janeiro pela Ibéria, e no meio da tarde chegamos no acanhado terminal do Aeroporto Ferenc Liszt, distante uns 20/30 minutos do centro. Todas as aéreas que voam do Brasil conectam rapidamente para Budapeste.

Não obstante, se iniciar a viagem por outra capital, saiba que a cidade tem uma excelente malha ferroviária e várias estações de Trem que conectam e são conectadas diretamente para vários pontos do Leste Europeu. Uma advertência importante. Não troque muitos Euros pela moeda local, o Florint, nos terminais de câmbio do aeroporto. Eles praticam péssimas taxas de conversão! Absurdas mesmo. Quando lá estivemos trocamos 1 euro por cerca de 247 florints, quando na verdade, em casas de câmbio oficiais, esse valor chegava próximo dos 300. Um táxi do aeroporto para o hotel na região de Buda ou de Peste é a maneira mais fácil e prática de se chegar na cidade. O percurso custará algo em torno de 35 euros. Há ainda um serviço de shuttle desde o terminal aéreo e que somente vale à pena se o visitante estiver viajando sozinho. 2 pessoas já pagarão quase o mesmo preço de um táxi. Por fim, para quem realmente esteja contando dinheiro, vale o sacrifício de pegar o ônibus #200E, que exigirá uma conexão com o metrô ou com um trem de superfície.

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Em relação ao planejamento, acho que três noites é o intervalo mínimo para a permanência. Menos do que isso, haverá arrependimentos, pois ficará tudo muito apertado e corrido. A cidade é bem grande e tem muita coisa pra ver e fazer nas suas 2 partes principais, Buda e Peste. Acho que 4 ou 5 noites é o ideal. Com esse tempo disponível, não haverá correria e a pessoa, além de cumprir as visitas turísticas essenciais, poderá ainda caminhar com calma pela rua, sentar pra tomar um café, ver o movimento, beber uma taça de vinho tokaji relaxado e estendido em um parque ou praça pegando um sol e fazendo um piquenique, ou até mesmo se permitir passar uma tarde em um dos banhos termais húngaros.

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Em seguida vem sempre aquela pergunta básica: “Em qual das duas ficar hospedado?”. Buda é mais vazia e residencial, mais cara para se morar, porque fica no alto da colina e dispõe de vistas deslumbrantes para o outro lado, notadamente do alto do morro gellerti, do castelo de buda ou do bastião dos pescadores. Lá ficam as residências oficiais do Primeiro-Ministro e do Presidente. Já Peste é o coração da cidade, na parte plana, onde a vida cultural e social acontece, onde mora a maioria das pessoas, onde ficam as grandes avenidas e ruas de comércio e onde se situa o Parlamento Húngaro. E, talvez o melhor de tudo, de onde se tem a vista para Buda, que é muito mais cênica e bonita do que Peste.

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Ficamos em dúvida até quase o último momento, pois tinhamos reservas que podiam ser canceladas até 48 hs antes em hotéis em ambas as partes. Acabamos nos decidindo por Peste, em um eatabelecimento bem próximo à famosa ponte das Correntes e com uma vista espetacular para o danúbio e para as colinas de Buda. Aproveitamos uma promoção de última hora no ótimo hotel sofitel e não nos arrependemos da decisão. Acho que Buda fica muito morta à noite e, por outro lado, suas principais atrações que são o Castelo, a igreja de St. Mathews e o Bastião dos Pescadores são facilmente acessíveis por escadas ou por um funicular bem defronte à ponte principal.

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Nas cercanias onde nos hospedamos, estava tudo muito próximo, a igreja de St. Stephen, o parlamento, este a uns 10/15 minutos de caminhada, o pequeno mas tocante memorial dos pares de sapatos de metal às margens do danúbio, simbolizando os judeus húngaros mortos na 2a guerra. Ao norte, a não mais que 10 minutos a pé, o Edifício da Ópera, que já fica na Andrassy Avenue, a Champs Elysées deles. Pro outro lado, também a uma distância plausível de ser percorrida a pé, o bairro judeu, com a famosa Sinagoga, bons restaurantes e vida noturna frenética, além do mercado central e a Váci Utca, uma das mais famosas e movimentadas ruas de pedestres de Budapeste. Foto da Karine destacando a fachada da ópera:

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A locomoção na cidade é bastante fácil, havendo 4 linhas de metrô que cobrem grande parte da zona urbana e ainda trams e ônibus que, virtualmente, podem levar o visitante para qualquer lugar na cidade, com segurança e tranquilidade. As linhas tem cores distintas e, uma curiosidade, a amarela é a mais antiga em operação do continente europeu. Tíquetes para o metrô devem ser adquiridos de acordo com a conveniência do visitante, havendo bilhetes unitários que custam aproximadamente 1 euro, cartelas com 10 bilhetes e ainda passes de 24, 48 ou 72 horas, todos podendo ser usados em conjunto com os ônibus e trams. As linhas de ônibus circular 16 e 16 A merecem menção por levarem diretamente (e retornarem depois da visita) ao castelo de Buda, um ponto muito turístico da cidade, de onde facilmente se visita o bastião dos pescadores e  a linda igreja de são mateus. Abaixo, mapa do metrô, lembrando que Pest fica à direita no mapa e Buda à esquerda:

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No primeiro dia, logo após o check-in no hotel, tínhamos ainda algumas horas de sol e fomos caminhar pela parte sudoeste de Pest. Começamos pelo calçadão (digamos assim) que existe às margens do rio danúbio e caminhamos umas 2 quadras até entrar para a concorrida Váci utca, uma das ruas mais famosas e turísticas da cidade, com lojas, boutiques, restaurantes e livrarias. Paralela ao danúbio, liga a famosa Praça Vorosmarty até o Mercado Central. A vorosmarty é uma pequena e concorrida praça que se situa no centro de Budapeste, bem no final da Váci Utca, antigamente conhecida como Gizella tér. Tér = praça. No centro da praça e voltada para oeste está uma estátua do homenageado, o poeta húngaro Mihály Vorosmarty, cujo pedestal se transformou em ponto de encontro dos budapestenses. Atrás do monumento há um pequeno jardim e uma fonte rodeada por leões de pedra, além da estação ponto final da linha 1 do Metrô, a mais antiga da Europa. Essa praça, que abriga ainda o famoso café gerbeaud, fica a não mais de 150 metros da ponte das correntes, a mais charmosa da cidade.

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Caminhamos pela Váci Utca e seguimos uma sugestão de roteiro nessa região, entrando incidentalmente em ruelas adjacentes e passando em visita pela igreja ortodoxa sérvia, pela sede da prefeitura (esta apenas a fachada externa) e por um pequeno tesouro escondido, o jardim mais antigo da capital húngara, o denominado Károlyi-kert. No passado, o espaço fazia parte de uma propriedade privada, mas atualmente, embora cercado, se tornou público todo em estilo francês, muito conhecido por suas belas plantas e flores, além de sua atmosfera bucólica e tranquila. Um lugar ideal para sentar e dar uma relaxada, observando as pessoas ao redor. Foi exatamente o que fizemos.

Budapest-Károlyi-kert

Em seguida, percorrendo a completa extensão da rua Váci, fomos caminhando até a entrada do Mercado Central, o belo e antigo edificio construido também para a celebração do milênio de fundação da cidade, no ano de 1896, tendo sido inspirado na arquitetura de Gustav Eiffel. O mercado já estava fechado e voltamos em outro dia para conhecer o seu interior. E para finalizar esse reconhecimento inicial dos arredores, retornamos ao hotel pela orla, admirando um belíssimo visual do pôr-do-sol atrás das colinas de Buda. Neste dia, o da chegada, de tão cansados, apenas fizemos um rápido lanche antes de dormir. Deu pra perceber de cara que cidade tinha algo de muito especial.

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Havia ainda muito o que ver e fazer nos outros 4 dias na cidade. Sigo contando no próximo post…