• fpcuesta@gmail.com

Auschwitz/Birkenau: Um dos capítulos mais feios da História da humanidade

Auschwitz/Birkenau: Um dos capítulos mais feios da História da humanidade

Na manhã de um dos dias que estivemos na bela cidade de Cracóvia, fizemos esse assombroso passeio que conta um dos capítulos mais horrorosos da história da humanidade. Entre 1941 e 1945, a cidade de Oswiecin foi o palco de Auschwitz I e Auschwitz II (Birkenau), os dois maiores e mais famosos campos de concentração do sistema de eliminação de vidas nazista, onde foram assassinadas quase 2 milhões de pessoas no decorrer do período citado. Fotos abaixo do fatídico e célebre portão de Birkenau por vários ângulos e distâncias, sempre cruzado pelo trecho final da linha do trem:

Nunca tinha visitado antes um campo de concentração pois bem sabia que essa dolorosa experiência tinha que ser vivida nesses dois símbolos máximos de tudo de terrível que esses lugares representaram. A Polônia, desafortunadamente, acabou sendo a maior nação hospedeira deste cenário de morte e de destruição. Ao final da segunda guerra mundial, apenas 300.000 judeus poloneses tinham sobrevivido, cerca de 10% da população original anterior ao inicio do conflito, sendo certo que apenas nesses dois campos de extermínio, morreram um total de 1.800.000 judeus, muitos deles trazidos de outros países europeus.

Por tudo isso e por todos os demais motivos imagináveis, é fundamental que essa história monstruosa não seja esquecida e que seja exaustivamente divulgada, para jamais se correr o risco de que ela aconteça de novo. A humanidade precisa estar sempre atenta e reiteradamente instada a refletir criticamente sobre a tragédia do holocausto. E Auschwitz cumpre muito bem essa função, abrigando um importantíssimo memorial em homenagem e respeito às vítimas. Abaixo retratos da área externa de Auschwitz I:

Estar em auschwitz/birkenau é muito diferente de ouvir falar ou ler sobre auschwitz/birkenau. Embora passados mais de 70 anos desde o fim do massacre e por mais que a pessoa julgue estar preparada para a visita, pisar lá é tarefa que exige nervos de aço. É como levar um soco fortíssimo na cara, sofrer uma queimadura grave e extensa ou mesmo como ser atropelado por um veículo. Não é um lugar agradável, por óbvio, muito menos recomendado para toda e qualquer pessoa. Quem se propuser a enfrentar o desafio precisa estar disposto a lidar com sentimentos de tristeza, de angústia e de raiva que se confundem e se multiplicam na mesma proporção, intensidade e velocidade. Nada te prepara suficientemente para o choque. Mas, apesar de tudo, é muito improvável que alguém se arrependa ou deixe de mudar um pouco sua visão de mundo após conhecer os campos. Impossível não se abalar ou ficar indiferente.

Nada substitui a sensação angustiante de entrar em um alojamento onde as pessoas ficavam amontoadas como animais à espera da morte respirando um ar úmido, viciado e putrefato ou então visitar uma sala onde estão expostos toneladas de restos de cabelo e milhares de pares de sapatos e roupas das pessoas mortas ou ainda ficar bem ao lado do final da fatídica linha de trem que trazia vagões insalubres e apinhados de carga humana, entregando diariamente centenas ou milhares de pessoas a um destino tão fúnebre quanto fugaz. Abaixo fotos desses vagões que traziam os prisioneiros condenados. Por vezes quase uma centena em cada um desses compartimentos escuros e sem ventilação adequada: Fotos também do fim da linha (e da vida) do trem. Era exatamente nesse ponto que o trem parava após cruzar o portão de Birkenau e eram ‘descarregados’ os passageiros.

De tudo que vi nos 2 campos, a pior parte que mais me chocou foi a denominada “sauna”, em Birkenau. Os prisioneiros separados após a chegada para morrer imediatamente eram obrigados a se despir e a ingressar em um simulacro de vestiário onde deixavam suas roupas em um armário e recebiam uma chave ao argumento de que tomariam um banho. Ao ingressarem nas áreas onde havia chuveiros, recebiam sobre suas cabeças doses de gás letal Zyklon-B ao invés de água. Os 4 ambientes deste grande galpão permitiam que 10 mil pessoas por leva fossem assassinadas a cada 20 minutos, sendo que muitas vezes esse ritual acontecia mais de uma vez no mesmo dia. Após o fim do massacre, um grande elevador subia do solo com os cadáveres que eram retirados às centenas e atirados em fornos de cremação que tratavam de rapidamente fazer desaparecer os vestígios materiais das atrocidades. Essa parte da visita foi dura demais. Algo sem precedentes. Fotos das ruínas da antiga sauna e crematório, mantidas como foram encontradas na data da liberação do campo:

Sofri um grande impacto emocional e assim permaneci por um bom tempo. Não sou um cara que chora com facilidade (e acho isso um defeito) mas confesso que derramei lágrimas nesse dia ao me deparar com tantas histórias tristes de vidas encerradas e famílias destruídas de modo tão abrupto, absurdo e desnecessário. Tudo como consequência de uma irresponsável ideologia esquizofrênica e megalomânica que tentava justificar o extermínio em massa de seres tidos como descartáveis e inferiores.

Sob a ótica deturpada deles, os judeus foram identificados como os grandes inimigos e responsáveis pelas desgraças do mundo e tinham que ser perseguidos e aniquilados. Além de sujeitá-los à morte, Hitler e seus comparsas nazistas, sob a desculpa de quererem criar uma suposta raça ariana perfeita e superior, não mediam esforços no arsenal de atrocidades, chegando ao extremo de obrar múltiplos experimentos médico-científicos com as pessoas, que eram submetidas a esses rituais macabros como autênticas cobaias humanas. Nesse mundo louco, não havia espaço também para quem tivesse qualquer deficiência física ou mental, ou ainda alguma sexualidade fora do padrão tido como normal. Foto de um paredão de fuzilamento para presos ‘indisciplinados’ em Auschwitz I:

Se é verdade que a cada vida que se perde injustamente, toda a humanidade acaba morrendo um pouco junto, certo é também que Auschwitz representa com exatidão esse período de holocausto moral de todos os seres humanos, que foram incapazes de usar os consagrados valores da inteligência, da ética e da bondade afim de evitar essa catástrofe de proporções universais.

Pois bem, tecidas as necessárias considerações introdutórias, passemos aos aspectos práticos. O passeio dura aproximadamente a metade de um dia e embora seja possível ir por conta própria, acaba sendo mais conveniente contratar um dos muitos tours guiados que partem diariamente de Cracóvia e que levam pouco menos de 1 hora até o ponto de partida da jornada, Auschwitz 1.

Antes da segunda guerra, o complexo servia de base para o exército polonês. Com a ocupação da Polônia, os alemães inicialmente tomaram esse espaço e transformaram-no em campo de prisioneiros para alocar seus inimigos políticos poloneses. A localização era ideal, próximo à linhas de trem e com rios ao redor que serviam como barreiras geográficas naturais. À partir do final de 1941, o lugar foi convertido em campo de extermínio em massa de seres “indesejáveis”.

Na chegada há sempre muitas filas mas tudo é bem rápido e organizado. Embora seja possível fazer a visita por conta própria, entre março e outubro, devido ao grande fluxo de turistas, as incursões somente são realizadas em grupos pequenos comandados por um dos muitos guias que trabalham no lugar, podendo ser escolhido o idioma de preferência. Pagando mais caro, também é possível a contratação de guias particulares. A ordem do percurso começa por auschwitz I e concluída essa etapa, ônibus especiais levam os turistas até Birkenau que finaliza a jornada. Foto de um sombrio alojamento de presos em Birkenau. Em cada buraco lateral desses dormiam 3 detentos amontoados:

Assim, feitas as apresentações de praxe, logo o grupo estará iniciando o roteiro quando passar pelo famoso e macabro portão de entrada que continha uma mensagem aos prisioneiros: “Arbeit macht frei”, ou “ somente o trabalho liberta”. De fato, ocorria exatamente o contrario com os concentrados, que acabavam morrendo pela exaustão, doenças e fome, cumprindo jornadas intermináveis de 16 horas de labor diário até o limite extremo de suas forças recebendo em troca uma miserável ração. Era o chamado extermínio lento por meio do trabalho. A foto do famoso portão contendo a hipócrita e mentirosa inscrição:

Ao cruzarem os portões, eram cruelmente recebidos por uma banda de música composta pelos próprios prisioneiros que tocavam marchas que facilitavam a contagem. Ato contínuo, tinham seus pertences imediatamente confiscados, os cabelos cortados e recebiam uma roupa listrada estigmatizada com uma estrela de David na manga. Chegavam achando que iam ‘apenas’ trabalhar forçadamente, não sabendo exatamente ainda que de lá jamais escapariam. Mas tão logo eram despachados para os alojamentos recebiam a verdadeira notícia, dando conta de que lá somente sairiam pelas chaminés do crematório. Foto tirada no local que faz um desenho charge de uma nova leva de prisioneiros entrando e sendo recepcionados por uma banda musical tocada pelos detentos mais antigos e ainda não assassinados:

A bem da verdade, na chegada era feita uma triagem. Separavam-se os que deviam morrer imediatamente e que eram despachados para as câmaras de gás, dos que poderiam ter alguma utilidade laborativa e que ficavam alojados nos pavilhões dos famosos edifícios de tijolo cor de ocre, pois somente morreriam com o passar do tempo. No primeiro grupo, geralmente ficavam as mulheres, crianças, idosos, pessoas que não gozavam de boa saúde e deficientes físicos e mentais. Tudo muito triste e terrível. Se não fosse a dura realidade seria um grande roteiro original de filme de terror. No restante da visita guiada, percorremos os vários pavilhões que hoje abrigam exposições que retratam a vida diária dos detentos, bem como as condições insalubres do lugar, assim como mostram os objetos e fotos deles ainda bem preservados, salas onde eram cumpridas punições a presos rebeldes, paredões de execução e o espaço dos chuveiros com gás e crematório.

Tudo bem protegido com cercas de arames farpado e avisos de risco de fuzilamento em caso de tentativa de fuga. Altas torres com guardas armados cuidavam dos 4 cantos do campo, sendo que estes tinham a ordem expressa de atirar em qualquer um que ultrapassasse a barreira do arame farpado. A tentativa de fuga para alguns acabava funcionando como uma mera alegoria em busca de uma morte mais rápida e moralmente menos dolorosa.

O terror começou com a sede em Auschwitz 1, mas a partir de finais de 1941, os nazistas queriam incrementar a velocidade da matança. Para tal, precisavam de um espaço maior e resolveram construir Auschwitz 2 ou Birkenau, cujo portão era atravessado pelos metros finais da linha de trem que trazia os prisioneiros de todos os cantos da Europa. Ou seja, eles eram recebidos pelos seus algozes já dentro do campo e muitos deles conduzidos imediatamente para a morte! Foto abaixo do crematório de Auschwitz I e sua respectiva chaminé, última parte da visita guiada:

Concluída a etapa em Auschwitz I, apanhamos o ônibus para Auschwitz 2. Trajeto rápido percorrendo 3.5 kilômetros, como dito antes. Birkenau, segunda parada do tour, não está tão bem preservado como Auschwitz pois foi destruído pelos próprios nazis quando da iminência do fim do conflito, numa tentativa de esconder um pouco as evidências materiais e vestígios de tanta infâmia. O portão de entrada está bem mantido, assim como apenas alguns pavilhões de alojamentos. A parte da sauna, do crematório e das covas foram implodidas e até hoje seus restos permanecem do mesmo jeito como foram encontrados. No local, funciona um memorial a céu aberto em tributo a todos os seres humanos assassinados em suas dependências.

Uma das coisas que mais fiquei pensando e refletindo enquanto estive lá no complexo foi tentando imaginar o incomensurável desespero que acometeia um homem de meia idade pai de família saudável, provavelmente judeu, enviado a um campo de concentração como um desses dois. Ele ia compulsoriamente, levado com sua esposa e filhos. Então pensava na sequência de atos. Retirados abruptamente de casa em qualquer canto da Europa, forçados a entrar em um vagão de trem que seria indigno até mesmo para carregar gado, eram então transportados como carga até essas sucursais do inferno. Lá chegando, esse homem era automaticamente separado e privado de sua família, sem ao menos ter a chance de se despedir de seus entes queridos e amados. Família esta que por ser composta na parte remanescente pela mulher e crianças, já estava previamente eleita para morrer tão logo chegasse ao campo. (Foto abaixo da chegada de famílias nos trens, traduzindo exatamente esse momento acima imaginado. O pai à esquerda da foto, sem saber, vive os últimos momentos ao lado da esposa e filho):

Se não bastasse essa dolorosa atrocidade, esse homem ainda era condenado a morrer aos poucos, tendo a sua dignidade surrupiada lentamente a cada dia com reiteradas humilhações e privações de toda sorte. Se não enlouquecesse, nem fosse fuzilado por descumprir alguma regra ou sofresse alguma experimentação científica como cobaia humana, morreria de todo modo por doença, inanição, fadiga ou todas essas circunstâncias somadas. Como lidar com essa realidade sabendo que isso aconteceu no auge da civilização moderna, há menos de um século? Impossível não sofrer junto e se compadecer com tantos casos de violência unilateral injustificada. Acredito que esse episódio se constituiu na maior infâmia de toda a história da humanidade. Mas, como sempre, a vida precisava prosseguir. Encerramos o tour com muita dor e perplexidade, mas cientes da importância de ter vivido a experiência e certos de que a dimensão de nosso sofrimento moral era apenas um átomo perto daquelas histórias reais experimentadas por tantas vítimas inocentes. Finalizando esse relato, fica a mensagem que precisa ser ecoada para sempre enquanto ainda houver pelo menos um único ser humano pisando no planeta terra:

“Forever let this place be a cry of despair and a warning to humanity, where the nazis murdered about one and a half million men, women and children, mainly jews from various countries of Europe.

Antes de concluir, agradeço como sempre à Karine pela extrema sensibilidade na elaboração e captura das fotografias, repletas de emoção e simbolismo.

Do Rio pro Mundo

Deixe sua mensagem

dois + quatro =